04- CONTOS: FRAGMENTOS DE VIDAS INTEIRAS.

CONTO N°01

O DOUTOR: VIDAS QUE SE CRUZAM



Bom, tudo começou tão sorrateiramente, tão inusitadamente que até parece montagem literária! O dia era comum, sem qualquer pretensão de especialidade, aliás, muito pelo contrário, uma rotina tão comum que chegava a beira do enfadonhismo. Mas a viagem estava marcada era caso de saúde e não dava pra esperar, a agenda havia sido feita previamente e todos os detalhes do qual dependia a viagem estava dentro do limite da precaução e da providência, administrativamente elaborado, disposto, encaminhado. Bom, afinal Nina é uma acadêmica em reta final de graduação no curso de administração na UFG (Universidade Federal de Goiás)!
Bem, pormenores e necessidades pessoais providenciadas documentos e demais assessórios em mãos o veiculo de transporte já colocado na frente da garagem e devidamente abastecido, aguardava apenas o desenrolar final para proceder à viagem até a cidade de formosa onde estava marcada a consulta.
Chegaram por volta das nove da manhã, o estacionamento estava cheio, o que sintomizava alguma espera, mas o dia estava todo determinado para essa finalidade, qualquer espera que se procedesse seria mero ingrediente de intensificação das atividades já previstas!
Na sala de recepção fizeram o credenciamento burocrático e se encaminharam a ante-sala de atendimento do consultório do doutor Gustavo. Ali as previsões de longa espera e cansaço não se confirmaram, havia poucas pessoas para o Doutor Gustavo atender, duas jovens e um homem de meia idade estavam à frente, ou seja, esperariam apenas por três atendimentos até que chegasse a vez da Tati a paciente em questão. Mas o fato é que a ordem de chegada pouco poderia intervir na ordem de atendimento, já que tudo é previamente agendado.
As horas voam, mesmo que às vezes tenhamos a impressão de que o tempo estagnou e se recusa a continuar o seu trânsito. Naquela salinha, Nina e Tati conversam disfarçando a ansiedade da espera, e no seio da falas das duas está a figura do doutor Gustavo, sim o objeto do diálogo é o jovem e belo doutor.
Ambas concordam quanto à beleza e jovialidade do médico, que encanta as duas jovens. A conversa se adensa e o tempo passa de repente o anuncio de que chegou a vez de Tati ser atendida. Nesse ínterim a porta se abre e Tati entra, ela passa e o olhar do doutor Gustavo, por um breve fragmento de segundo encontrou o olhar de Nina que naquela saleta o espreitava com olhar devoto de quem se debruça sobre a perfeição a contemplar suas minúcias. Assim estava ela, que nesse breve fragmento de segundo encontrou o seu ápice num revestir-se de eterno quando recebeu a reciprocidade do doutor a apreciá-la firme e insistentemente, ainda que no fortuito e eterno fragmento cronológico.
Foi rápido, tão rápido que se confirma dicotômico, pois eternizou nas retinas brilhantes de Nina, o olhar inesquecível do doutor Gustavo, que lhe apreciava sem nenhum pudor ou determinação de cautela ou disfarce, ele foi contundente e agressivo, faminto e persuasivo, foi de uma eficiência que ninguém jamais poderia imaginar que tão breve fragmento de segundo, tão intensa e efêmera olhadela gestaria ali num passe de mágica uma atração cinematográfica, uma paixão romancesca, um desejo carnal, intenso e devaneador, poético e ébrio, luxurioso e atrevido...
Nina nunca mais seria a mesma após a aquele encontro retínico, aquele amor visual, aquele flerte casual e instantâneo, passageiro e diminuto. A olhadela por entre a fresta da porta do consultório do médico imprimiu em Nina uma fixação, gerou em seus anseios femininos, o tipo ideal, o molde adequado, o homem dos sonhos, o amante perfeito. No silêncio de sua introversão imaginava ela os afagos, os carinhos, os amores. Contemplou em seus arquivos mentais, aquela imagem dócil e cativante, inesquecível e devotável e a amou de um jeito quase patológico. No seu âmago o desejou com furor uterino intenso e decidiu que faria tudo, tudo quanto estivesse ao alcance de sua atrevida vontade de ter para si aquele homem.
A consulta alcançou termo, outros assuntos foram tratados e enfim o dia desvaneceu no lusco-fusco. A volta trazia um expectância pueril e jovial num misto grandiloqüente que excitava e inquietava Nina que no silencio de sua intimidade repetia para si, ele será meu, ele será meu, ele será meu...
Os dias se sucederam naturalmente, sem muitas novidades, até que numa noite quente, Nina não foi à faculdade e teve tempo de volver às suas memórias e assim participar a Tati, aqueles volumosos desejos, encontros e pensamentos, que em um turbilhão de acontecimentos gestaram em si as mais inusitadas fantasias, os mais intensos e variados desejos, os mais inconseqüentes e intrépidos planos de aproximação, para ter um contado com ele, o objeto de todos os seus pensamentos, de toda a sua contemplação, de todas as suas fantasias. O doutor Gustavo.
No decurso do dialogo com Tati, confissões foram reciprocamente proferidas, sensibilidades e fantasias desfiadas em um rosário de deleites e risos que aproximavam as duas num lúdico momento de conversa de mulher. Nina discorre sobre os cabelos láureos e belos, os olhos maravilhosos, a pele, e aqui verbaliza a emoção e o tesão que imagina causar, o toque daquele corpo, daquela pele, enfim daquele homem. Fala da boca, do riso, do brilho no olhar, do cheiro que a metros pôde sentir, uma essência diferente, mas que podia ser definida como a essência da paixão voluptuosa e desmedida. E ambas se riam e se divertiam muito... Até que Tati faz uma observação que foi quase uma agressão aos ouvidos de Nina, ela confessa ter visto uma aliança nos dedos do médico. Isso implica que ele é noivo ou casado, isso muda tudo, isso agride todas as fantasias, todos os devaneios, todos, todos, todos.
Nina é tradicional em muita coisa e no que se refere ao casamento, ela é carola. Católica de educação e prática até aceita com certo pudor competir com uma rival para subtraí-la o noivo, embora muitas vezes se sinta promíscua com relação a essa verdade, mas ainda assim, tolera, mas se o médico for de fato casado será o fim a morte trágica de tantos sonhos, desejos e fantasias. O simples pensar nisso, a entristece e extenua.
Nina é uma mulher muito bonita, é jovem, alegre, tem um corpo bem feito e bem delimitado, se veste bem, embora com parcimônia, e consegue se impor como mulher sem nenhum esforço, suas atribuições naturais de mulher são bastante eloqüentes e persuasivas para qualquer homem, e muito certamente, não passa despercebida por nenhuma mulher. Ela tem uma beleza simples, pouco erotisada e nada vulgar, porém sem nenhum matiz artificial, das construções estéticas que formam e deformam as mulheres que lhe são coevas.
O desejo e os projetos para alcançar o médico, que não se esvai de sua mente fica a cada dia mais intenso nem as considerações de uma possibilidade remota, mas possível de ser ele um homem casado, a faz esmorecer de sua meta, ela vai fazer contato e ouvir a sua voz percebê-lo de algum modo e em fim descobrir se é esse deus nórdico um, homem que lhe está vetado por suas convicções religiosas e morais, por ser casado, ou se é um homem que aceita as investidas de uma mulher decidida e em plena guerra pelo seu projeto. Assim mobiliza todas as suas forças, todos os seus contatos e após muito esperar, ligar, conversar, insistir, enfim consegue o numero do celular do médico e agora está a um passo de fazer a ligação e ver decidido o final desse romance psíquico em que ela se vê envolvida, pela força da beleza do médico e pelo impacto do brilho do seu olhar.
No Silencio de suas expectativas elabora mil planos de como fazer a ligação, e de como proceder a essa fala de introdução. Tudo é perfeitamente factível e inseguro, segundo seus pensamentos. Dependerá somente dela o sucesso desta empresa, no entanto ela não se engana conhece suas inquietações e tudo quanto está além de seu controle, o que em muito a deixa insegura, porém não o suficiente para fazê-la desistir.
Dentre tantos planos ela concebe um, não melhor ou pior, mas diferente e desafiador. Um amigo a aconselha a interpretar uma personagem, desenvolver uma performance teatral, para se aproximar do seu objeto de desejo e verificar tudo quanto é indispensável para prosseguir ou desistir. Ela gosta das sugestões e de toda a loucura do plano e passa a considerá-lo, cria um pseudônimo e define quem é essa mulher.
Sexta feira véspera de um feriado, que alongará o final de semana até a segunda feira, que será folga em função do feriado nacional, Nina acorda decidida a encontrar de vez o seu médico e verificar todas as suas inquietações.
O telefone toca... Trimmmm, trimmm, trimm... Mm... Uma voz suave e desenvolvida avisa eletronicamente que a ligação estará sendo encaminhada á caixa de mensagem, quando a ligação é subitamente interrompida.
Uma angustia faz ebulir um sentimento de descontentamento que em muito lembra a sensação de fome. Uma irritação grita vociferante dentro daquela mulher impecavelmente produzida, e num surto de ira, ela atira o celular sobre a cama e sai do quarto pisando duro e asperamente como se estivesse esmagando toda a sua frustração, a cada passo. Anda pela sala, passa pela cozinha, abre a geladeira, pega a jarra de suco e toma um pouco de suco fresco feito com poupa de fruta da fazenda. Um vento leve e descontraído entra pela janela e lhe sopra numa brisa afável e rejuvenescedora, que vai levando toda a irritação momentânea que a afligia. Com a mesma imponência visual e estética refaz o caminho até o quarto agora num bailar sutil que em nada lembra a intensa angustia que destilara no caminho inverso.
Defronte ao espelho olha a si firmemente e deixa escapar um discreto e zombeteiro sorriso. Vira-se para a cama e olha o celular em um canto próximo ao travesseiro em formato de coração de intenso vermelho aveludado. Sorri levemente, coloca o copo sobre a mesa do quarto e se joga sobre a cama como uma suicida precipita-se. O atrito do seu corpo contra o colchão macio faz ondinhas e um ruidoso som que em escala decrescente vai silenciando-se. Suas mãos macias e de dedos finos e harmônicos desliza suavemente sobre o lençol fino e perfumado e numa procissão lenta e planejada serpenteia sobre a cama até tocar o aparelho celular que ali está inerte. Gira lentamente e minuciosamente olha aquele aparelho seus pensamentos divagam em milhares de pensamentos desconexos, que vão desde a filosófica questão de onde viemos até a questão mais funcional no que se refere a um aparelho tão pequenino como aquele, poder aproximar tantas pessoas e vencer a distancia, o tempo e em certa medida o espaço... Naquela semi-inércia, numa letargia filosófica ela se demora num momento sem nada de nexo, até que abre o aparelho e verifica uma chamada não atendida, quando visualiza o número que chamou num súbito movimento salta sobre a cama e senta se numa manobra circense. O coração acelera, as mãos suam frio e o respirar se descompassa, na irritação do momento abandonou o celular no quarto e enquanto saia até a cozinha alguém ligou, e não foi qualquer alguém, foi alguém especial, alguém por quem ela buscara a semana toda e insistentemente encontrava a sua caixa de mensagens. E agora que a pessoa finalmente resolve retornar a ligação ela está ausente e não atende. Um desespero mórbido se apodera dela e ela culpa-se, culpa-se até decide ligar mais uma vez.
O ambiente é corriqueiro, uma unidade hospitalar. Mas é um hospital que atende particularmente e em convênios com instituições públicas, no entanto a estrutura é impecável embora simples. No estacionamento uma corola preto, reflete as imagens adjacentes de tão limpo e lustrado, sua porta se abre e acolhe ali o seu proprietário, um belo e jovem médico, que após um longo dia de trabalho ainda irá se encontrar com uma jovem que lhe solicitou ajuda para um trabalho universitário de conclusão de curso.
O doutor Gustavo é muito solícito sobremaneira aos estudantes que a ele recorrem, pois ainda trás em si o frescor e os desafios inerentes ao processo de graduação. Por isso sempre que pode dispõe se a ajudar àqueles que o procuram. No local cominado ele chega meio sem jeito, pois está cansado e nem pode passar em casa pra tomar um banho e se descansar um pouco. Numa mesa um jovem o recepciona com um sorriso que dispensa qualquer apresentação. Com um sorriso acolhedor o médico retribui a saudação e trocam dois ósculos faciais sentam-se e sem demora ou qualquer fetiche protocolar passam as falas, pois o pragmatismo do doutor Gustavo não permite muitos rodeios.
Júlia se apresenta como graduanda do curso de administração, conceitua sua instituição de ensino e a conversa se desenrola.
A conversa vai se intensificando e ora ou outra o médico toca a mão de Júlia numa espécie de ritual de intimidade, e desconhece os efeitos dessa ação na bela jovem.
Ela está impecavelmente bela, num vestido de cores mistas e leves de harmonia indefectível, que lhe cai muitíssimo bem valorizando seu corpo e seus traços femininos, uma maquiagem moderna e sutil que transmuta aquela jovem bela numa explosão de mulher, uma espécie de deusa mítica grega, todos os presentes e transeuntes registram a presença daquela jovem. Não há nada de extravagante e ou diferente demais na jovem, mas sua figura exerce um magnetismo que atraem os olhares inclusive o do médico que a fita insistentemente enquanto conversam, e talvez até inconscientemente sente o impulso de tocar as pontas de seus dedos, que apresentam belas unhas, artisticamente produzidas.
O espelho reflete dois corpos nus em estado de repouso, gotículas de suor escapam pelos poros da pele avermelhada, um perfume de paixão emana da cama desfeita com lençóis ao chão e um mar de amores afoga as duas almas entrelaçadas em dois corpos que mais parecem um, numa cama de motel. A mente sonolenta e saciada rememora o frenesi dos corpos famintos em retro projeção de imagens imediatamente vivenciadas e ainda quentes no colo do passado. Olhos brilhantes como o sol, corpos quentes como lava de um vulcão incandescente, vozes loucas e roucas em gemidos e gritos desesperados, impactos de peles que se atraem com a força e o magnetismo que lembram a força da gravidade. Um não consegue deixar o outro e se possuem e se amam, se devoram se deságuam infinitas vezes num amor insaciável. Como se todo o resto do mundo não existisse, mais que isso, como se do gozar desse amor, do viver dessa paixão, do devorar um ao outro, numa bacante e indescritível noite de amor, dependesse toda a estrutura da existência universal. Assim se demora nesse ato, quando o médico Gustavo inquire educadamente à jovem Júlia - Em que lhe posso ajudar?
Despertando do sonho que vivenciava naqueles segundo que sucederam ao toque do rosto de Gustavo ao seu rosto, onde Júlia perdeu a razão de tempo, espaço e realidade e o amou como uma deusa gerando o cosmo do seu amor insaciável, ela o fita firmemente e sorri, o papo se desenrola e muito se conversa em quarenta minutos de conversa. O telefone do médico toca e ele indisfarsavelmente ganha um leve rubor nos seios da face, diz que aconteceu um imprevisto e que precisa encerar aquele assunto, se desculpa levanta-se e antes que Júlia pudesse dizer algo mais, ele se vai apressadamente.

Os dias correm na indiferença comum do deus cronos, sem si importar com as querelas vãs que preenchem os dias. Assim as frivolidades toscas que enchem o cotidiano só encontram relevância no seio dos seus atores. Nina acorda com o raiar da aurora, pois em mais um dia de viagem vai novamente ao consultório do doutor Gustavo, aquele homem maravilho que tanto lhe impacta. Dessa vez ela também se submeterá aos exames daquele homem e têm calafrios só de imaginas suas mãos tocando seu corpo para proceder aos exames.
No consultório quando a porta se entre abre e é chamada a sua irmã Tati, os olhos de Nina se encontram com os do médico e aquela cena de tão distantes dias se repete como se acontecesse da primeira vez. Os corações se descompassam e certo inconveniente se mostra quando um e outro deixam os presentes perceberem a trocas de olhares.
Quando enfim é anunciado o nome de Nina, o frio lhe engessa os movimentos e ela teme aquele momento, mas avança e adentra o consultório, a porta se fecha. Vendo o prontuário, o médico pergunta, Nina ou Júlia, a quem eu devo atender? Aquela pergunta desarmou a bela jovem que se viu nua frente ao médico, tudo que ela conseguiu esboçar foi um sorriso fortuito e de pouca segurança. Ao se demorar sobre o médico verificou que este estava rubro e trêmulo o que lhe fez recobrar a segurança e então avançou, e devolveu a pergunta, em tom audaz e irreverente. A qual delas deseja examinar? Os dois se riam, marcaram de se encontrar pra dissolver os resquícios daquele primeiro encontro.
Enquanto atendia a Nina o médico demonstrava muito selo e carinho por ela e alimentava assim seus mais inusitados sonhos, se despediram e um novo encontro a três ficou agendado.
No encontro em local adequando e torcendo para que tudo acontecesse da melhor maneira estavam presentes Nina, Gustavo e Júlia. Muitas expectativas envolviam o encontro. Quando estavam frente a frente e sem pressa Nina olhou diretamente na mão de Gustavo que não trazia nenhuma aliança como prenunciava Tati, mas estava marcado em seu dedo anelar o sinal que ali esteve por muito tempo a presença de uma espécie de anel. E nina se pergunta: - Terá sido a aliança propositadamente retirada, teria sido cafajeste o suficiente para tamanha manobra, o lindo e irresistível Gustavo? Júlia O fitava famintamente e administrava previamente os atributos físicos do bem sucedido jovem médico. Nina e Júlia se entreolhavam maliciosamente e se inquiriam sobre o que poderia resultar daquele encontro. O jovem médico olhava firmemente aquela jovem e bela mulher ali em sua frente e não conseguia dissociar As duas identidades que detinha da mesma jovem e bela mulher
. No momento em que iniciavam a conversa um jovem negro e belo adentra o recinto acompanhado de uma mulher bela e de vestes requintadas e imponentes, um rubor intenso desenhou no rosto de Nina um aparente pavor e o doutor Gustavo percebeu tudo isso sem disfarçar sua inquietação com aqueles que acabaram de chegar, felizmente aqueles se encaminharam a outra extremidade do salão, no entanto uma inquietante sensação de que estavam sendo observados permeavam o casal que conversavam.
O que há de razoável em tudo isso é que sob o ponto de vista da humanidade, todos sonhamos, amamos, traímos e somos traídos em algum grau. Todos somos belos, lindos e irresistíveis, dependendo tão somente dos olhos que nos olham e sobre quais perspectivas nos olham. As vezes sofremos por idealizar demais e buscar longinquamente a felicidade que está do lado nos chamando pelo nome. No entanto já advertiu o poeta lusitano tantas vezes parafraseado... Tudo vale a pena se a alma não é pequena, e o profeta anunciou aos pudorosos e puritanos que temem a vida por suas dores e métricas que na dose certa e na hora certa tudo é bom e faz bem, afinal a diferença entre veneno e remédio é a dose. Nina é todos nós assim como Julia e Gustavo, agora o desfecho da história pode ser recontado ao sabor do desejo de cada um...
Não resistindo a inóspita situação de se sentirem vigiados e movidos pelo desejo, Nina e Gustavo deixaram discretamente o local e se foram deixando no ar um quê de mistério e suspense que não anuncia o desfecho de vidas que se cruzam tão inusitadamente sob os auspícios dos mais variados episódios, e assim se mesclam deixando e levando um pouco de cada um...



__________________________________________________________________________________

CONTO N°02


CUSPÃO


A memória do ser humano é algo fantástico, você já observou meu amigo leitor como ao ler estas memórias que aqui transcrevo, independentemente de serem elas, frutos da criatividade, ou experiência vivida em algum lugar, por alguém, ao passo que você avança na leitura vai se apoderando de cada descrição e reconstituindo ou recriando à sua maneira a partir de suas memórias o cenário e o contexto que melhor lhe permite apreciar e apreender a leitura?! È! De fato a memória é uma ferramenta fantástica. Enquanto falo–te dessa minha observação que espero ser uma observação que compartilhamos, vem dos arquivos de minha memória uma lembrança distante de minha infância mais tenra. Lá pelo desfalecer do século vinte, quando contava eu, uma meia dúzia de primaveras pueris, no bojo do meu pai sertão. Tecendo-me singelo no afago do rei Cerrado. Assim como num efeito do cinema moderno adentro no veiculo da lembrança e um clarão de explosão luminosa, daqueles que cegam e dissolvem todas as imagens para mudar a cena, como um mágico resultado de uma perfeita edição, desemboco no infante, dia dez de agosto, de mil novecentos noventa e três. O dia de inverno chapadeiro, corriqueiro como ele só, segue com seu ar quente e seco entrecortado por rajadas de ventos gélidos e redemoinhos de poeira e folhagens secas, que o vento recolhia da imensidão do Cerrado. Naquela casinha pobre e singela feita em adobe de barro cru cozido ao sol, a derredor de um fogão de lenha, dona Joaquina ferventava cará-do-ar, para fazer almoço para suas seis crianças. O constante e invencível dever domestico lhe sugava a seiva da vida e preenchia-lhe as horas integralmente.
O quintal, que era quase uma chácara, tinha uma variedade de frutas e de plantas de frutos comestíveis, que era um sonho, ou mais que isso para aqueles irmãos era o mundo, o seu universo inteiro, onde a vida acontecia, com todos os seus mistérios e encantos.
Tião, Lulú, Leo, Chico, Bela e Dingo, eis aí a inacabada prole de dona Joaquina, que em anos mais tarde ainda receberia mais três membros, Rubi, Jotinha, e Zamorino, mas estes ainda estão por vir, nascerão em anos futuros.
Os três maiores, Tião, Lulú, e Leo estão para a escola, os três menores, alheios as dores do cotidiano recebem o dia para brincar e a noite para sonhar, comem, dormem e brincam como deve ser a vida de toda criança! E assim nesse pueril universo doméstico, vão eles correndo pelo quintal, cada um acabou de tomar o café da manhã, um copo de café quente, feito chotão, (café quente com farinha de mandioca), farinha que era fabricada pelo pai das crianças na roça da família. Os canecos feitos de lata de extrato de tomate pelo ferreiro da cidade o “Seu Sabino”, exímio fabricante de utensílios domésticos a partir de material descartado como lixo e respeitado benzedor, devoto de Santos Reis e muito Amigo da família.
O ritual matinal se dá da seguinte maneira, Chico e Dingo acordam normalmente juntos, como se fosse combinado, mas não é simples assim, eles dormem juntos dividem uma cama feita de couro de boi, trançado com colchão feito de capim, forrado com uma colcha rústica, feita de retalhos de pernas de calças velhas, costurado com linha de algodão cru tecido no fuso nas horas amenas, por dona Joaquina, mulher prendada e de muitos ofícios, como toda mãe pobre e lavradora do Cerrado goiano. E por isso os dois irmãos deitam juntos e acordam juntos. Após acordar chamam Bela que gosta de dormir até mais tarde, e após dirigirem-se ao pai e à mãe para pedir a bênça (benção) encaminham-se todos à bica para lavar o rosto. Depois de comerem o chotão correm para o quintal onde reproduzem as mais variadas fantasias no jocoso mundo infantil.
Seu Ló, esposo de dona Joaquina e pai desse trio infante, está para a roça e só chega no final da semana, é tempo de preparar a terra para receber as novas sementes, lembrando a canção sertaneja, que pelo rádio embalam as manhãs e as tardes da família, “é calor de mês de agosto é meados de estação vejo sobras de queimadas e fumaça no espigão... Lavrador tombando a terra dá de longe a impressão de losangos cor de sangue desenhados pelo chão...” É esse o retrato do Cerrado chapadeiro, revirado em mês de agosto, pelas foices e machados, movidos por braços valentes e sofridos de uma infinidade de lavradores que colhem do chão o pão de cada dia regado a suor e sonhos, lágrimas e esperanças muitas.
A sombra do abacateiro os três irmãos brincam, o desejo de tomar garapa (caldo de cana) toma conta dos anseios dos três, a cana caiana é a mais molinha e mais docinha, preferida das crianças e ao mesmo tempo proibida, já que o pai proíbe severamente que arranquem as frutas quando ainda estão verdes, o que é visto como um desperdício. E quem ousa desobedecer ao afável e carrancudo Seu Ló? Ninguém! Exceto se o crime gozasse de um plano muito eficiente que garantisse que ninguém seria descoberto, o que jamais aconteceu, pois com o sucesso do plano sempre vinha a reincidência, que desaguava sempre na descoberta e conseqüentemente, na pêia prometida aos desobedientes. Com tal desfecho era sempre mais aconselhável esperar o momento e a ordem paterna para colher os frutos e saboreá-los.
Mas havia a cana roxa, quase tão doce quanto a caiana e dura como pedra, usada para fazer rapadura e para tratar do cavalo carroceiro que era o meio de transporte familiar, essa sim tinha em abundância o ano todo e não havia restrições. Essa era a matéria principal dos banquetes nas brincadeiras das crianças. Mas só com muito custo o maior dos irmãos, o Chico, conseguia descascar a cana e cortar em pequenos pedaços pra que todos pudessem saborear. Sempre que o pai vinha da roça trazia farinha, rapadura, mandioca, abóbora, leite, carne de alguma caça, e caldo de cana.
Os três brincavam e chupavam cana roxa, até que surgiu o intenso desejo de tomar caldo de cana, mas havia aí um problema, não tinha caldo de cana, e demoraria ainda para que Seu Ló chegasse da roça para que o caldo de cana viesse. Mas esse fato era apenas uma constatação que em nada alterava o desejo de tomar garapa e o pior a lembrança aguça o desejo e a memória manipula quimicamente o desejo chegando a reproduzir na boca o doce sabor da garapa, chegando a encher a boca de água, todos salivavam relembrando, as tantas garapas gostosas que já haviam tomado, o quanto havia tomado, como chegaram a passar mal de tanto beber garapa chegando a ervar, termo usado pra definir quem passa mal de tanto tomar garapa.
Foi nesse momento de tão saboroso lembrar que Chico se lembra de Mateus, um seu tio materno que produz garapa sem usar engenho ou qualquer outra ferramenta, que não, um toco de madeira ou pedra grande e um pilungo (que é um pedaço de madeira grossa e forte usado pra bater como se fosse um martelo), após contar detalhadamente como tio fazia e tomava garapa Chico deixa o desejo dos outros dois elevar a prece que contemplaria o seu desejo, e assim em uníssono verbalizar Bela e Dingo sugerem o que Chico quis propor ao contar tão eloqüentemente o que fazia seu tio Mateus para tomar garapa. Uma vez proferida a prece e constatado o desejo e o consenso de tomar garapa extraída da cana do mesmo modo que o tio fazia. Cada um correu em uma direção para providenciarem tudo que se fazia necessário para a experiência, afinal se tio Mateus conseguia por que os três não conseguiriam?
Bela providenciou o copo, Dingo o facão e Chico providenciou a pedra e o pilungo, definiram o local da fábrica e foram à touceira de cana escolher aquela que lhes saciariam o desejo de beber garapa. Seguindo a sapiência que adquirira indo à roça com o pai Chico define para os menores qual cana apresenta melhor aparência para ser a escolhida, é uma grossa de palhas mais secas que se encontra bem no meio da touceira de tão madura já apresentava rachaduras em alguns dos gomos. Ignorante do sentido que suas observações pudessem fazer para Bela e Dingo, Chico continuava sua exposição de exímio conhecedor de cana madura. Derrubada a cana tiraram lhe a palha e a folhagem e arrastaram para debaixo do pé de manga ubá onde a empresa de fabrico da garapa se daria em efetivo. Chico cortou um grande gomo e colocou sobre a pedra Dingo passou lhe o pilungo e ele começou bater fortemente naquele gomo para extrair dali a tão desejada garapa. Dentro em pouco Chico suava de cansado e era obrigado a revezar com os outros dois, mas eles eram bem menores e mais fracos, sobrando sempre a ele a feita de esmagar a cana com o pedaço de pau até estar amassada o suficiente para dar-lhes o seu suco tão esperado.
O tempo passou e a extração do caldo de cana não se mostrava tão eficiente e fácil como pareceu na narrativa de Chico a impaciência de Bela e Dingo já começava a irritar o pequeno Chico que se frustrava por não conseguir com sucesso o que via tão fácil nos feito do tio Mateus. Mas a tríade mostrava se mais determinada que qualquer dificuldade após muito tempo de pancadas e torcidas nada mais do que algumas gotinhas de garapa havia sido extraída para cada um adocicar a boca e acentuar o desejo de beber garapa.
Mas que ninguém duvide da engenhosidade humana, quando o desalento já abatia os produtores de garapa, uma reminiscência do fato protagonizado pelo tio Mateus e testemunhado pelo intrépido Chico, veio à tona par reanimar os três irmãos sedentos de beber garapa.
Chico verificou um detalhe de sua lembrança que viria a fazer toda a diferença no fabrico da garapa, tio Mateus não apenas batia a cana com o pilungo e torcia na boca, mas sugava fortemente a cana ao passo que a punha entre os lábios e torcia com força, enfim fora descoberta a ciência implícita no fabrico da garapa empreendido tão eficientemente pelo tio Mateus e que numa manhã inteira de tentativa não produzira mais que algumas gotinhas do suco da cana. Constatado o detalhe cientifico que aparentemente fazia toda a diferença, as três crianças fizeram uma pausa tomaram água fresquinha do pote de barro que ficava sobre um banco de madeira que havia sido do deu avô paterno e voltaram afoitos e decididos para a sombra do pé de manga ubá. Alí escolheram um novo como da cana e recomeçaram o trabalho de tirar da cana a garapa, para Chico mais que o desejo de tomar garapa agora estava em jogo a sua liderança entre os irmãos afinal, que líder é esse que não consegue saciar a sede dos seus irmãos liderados, mais fracos, menos experientes e ansiosos tanto quanto ele pra ver aquilo dar certo e provarem o caldo daquela cana que tanto lhes dera trabalho.
Ensimesmado e decidido, Chico bate na cana com o pedaço de pau, bate, bate, e bate, até que Bela fala. - acho que já ta bom, agora deve sair garapa! Aceitando a fala da irmã, Chico pede que ela segure o copo que ele irá torcer e retirar da cana a garapa. Ele torce com toda a pouca força que tinha, ou melhor, com o resto da pouca força que ele tinha, pois após tanto tempo batendo aquele pedaço de cana ele estava suado, cansado e sem forças. Dessa vez a experiência é mais satisfatória sai garapa o suficiente para cada um dos três tomar um gole. E é a garapa mais doce e mais gostosa do mundo. Afinal, não é só garapa é o fruto de um esforço grupal contínuo e difícil, que após horas de empenho e tentativa jorra em três goles de garapa mais do que saborosa, redentora! O entusiasmo toma conta da tríade e aquele redentor gole de garapa renova as esperanças, as certezas e o vigor. Um novo pedaço de cana é escolhido e um novo ritual de golpes se segue virilmente.
Enquanto Digo e Bela esperam concentrados, Chico bate a cana e decide como fazer para aumentar o suco extraído daquele pedaço de cana. Quando julgam que o pedaço de cana está moído o suficiente, Chico começa a torcer o gomo de cana, mas agora não no copo, agora faz ele como viu fazer o seu tio Mateus, ele leva a cana batida à boca torce com força e chupa simultaneamente o caldo até encher a boca, depois deposita dentro do copo o fruto do seu esforço. Assim ele torce e chupa a cana para retirar a garapa. Sucessivas vezes ele repete o esforço, faz isso uma, duas, três, quatro vezes, até estar cansado e julgar que não tem mais garapa naquele pedaço de cana.
Agora o trabalho do grupo rendeu uma boa quantia de caldo, um copo grande de trezentos mililitros, feito de uma latinha de extrato de tomate onde era depositada cada gota da garapa extraída pelo impacto dos golpes, a força do torcer o bagaço e vigor da sucção labial, o copo agora estava cheinho de garapa! O método de chupar e cuspir no copo, foi muito eficiente fez render garapa o suficiente para os três irmãos tomar e se saciarem com aquele pouco, mas, inigualável em sabor, de garapa que conseguiram com o empenho de três mentes pueris que descobriram os mistérios e as dificuldades que envolvem a engenhosa produção humana. Aquele episódio passou à memória dos irmãos com o título de cuspão, o melhor caldo de cana que Chico. Bela e Dingo tomaram em toda a vida.
O poder da lembrança abre os arquivos da memória e faz novo ao ser humano o tempo vivido e passado, e este sempre se lhe apresenta como o lugar perfeito e feliz onde tudo era bom e melhor, por isso o homem lembra para ressignificar seu universo, para se sentir seguro e seguir em frente no caminho que a vida lhe oferece.




___________________________________________________________________________________



CONTO 03



O TIXÉ

Lembro-me de Valdeci contando-me coisas de sua infância, e me recordo mais ainda de seu lamentoso queixar, de seu coçar a cabeça com sofreguidão e de sua expressão a dizer...
- É... Esse mundo véio tá do avesso, tô anté achano que é mêmo fim de mundo!
- o povo perdeu a vergonha e foi de vêis!!!
Ele dizia isso e fitava o nada, fitava assim com tanta firmeza no olhar, que até dava a impressão de que via através da transparente cortina de ar que tão insistentemente ele fitava. Demorava-se naquele segundo eterno de silêncio sólido e depois volvia para mim o seu olhar, se ria entreabrindo, aquela boca flácida e desdentada que suportava já seus setenta e quatro anos de vida e dava uma tragada no pito, que era como ele chamava o cigarro de tabaco curtido no sereno, que ele mesmo fabricava e seguia suas falas engraçadas. Ele tinha enorme prazer no cigarro. Fumava tabaco desde molecote quando ia pra lida de roça com o pai, isso dizia ele...
- Quem me ainsinô a fumá, foi o véi meu pai, pamode dá conta dos muruim e burrachudo no mêi da roça, hé hé hé...
Se ria prodigamente e continuava,
... Mode que muruim e burrachudo dexava quorqué um lôco das idea de manhã cedo ante do sor saí e no morrenim da tarde tamém. Só memo cum pito de fumo da roça pá guentá aquela coizera no péduvido. E de manhã cedo inda era mais pió! Meu bom jesuis, quê quera aquilo!!! Exclamava ele levando o pito novamente à boca.
Um dia enquanto conversávamos, perguntei a ele se já tinha sido casado, se amara alguém, como tinha sido sua vida de homem? Como tinha sido sua vida de rapaz?
Ele enrijeceu o cenho, fechou o semblante que ganhou contornos penumbrados e seus olhos marejaram enquanto ele me olhava com seu olhar insistente e rude, que ocultava tão afável criatura.
Olhando-me de olhos lacrimejados, não disse nada por algum tempo, enquanto seus olhos diminuíam ante a força da insistente lágrima que crescia em suas retinas. Antes, porém que as lágrimas eclodissem num pranto a marcar lhe o rosto queimado de sol, ele afastou do queixo o pito, com a mão direita, levou o punho esquerdo cerrado, ao encontro do olho direito e esfregou com as costas da mão fechada, macerou a lágrima no olho antes que ela dali caísse, de igual modo após dois ou três esfregões, de punho fechado no olho direito, entreabriu sua mão colocando em um olho o polegar e no outro os demais dedos, num movimento perfeito de quem fizera aquilo a vida inteira, sempre que se emocionava, no afã de conter o pranto, circundou ambos os olhos com as pontas dos dedos e num repuxar que encerrava a coreografia, desceu a mão até a ponta do nariz. Seus olhos ali estavam marcados pelos esfregões e sinalizando alteração notória, porém as lágrimas se tinham esvaído no atrito de mão e olhos. Assim contivera as lágrimas, o velho Valdeci. Ante sua emoção desisti de insistir naquele assunto e comecei a assoviar uma canção que sabia que ele gostava, pois sempre o ouvia a assovia-la. (... ♪♪ Subi no pé da roseira, oh rooosa, tiraaanaaaa... Oh roooosaaaaa ♪♪...).
Ele ficou ali, agora cabisbaixo pitando e rabiscando o chão entre suas pernas, enquanto o silêncio dissolvia aquele momento de emoção.
Hê, hê,hê,hê,hê, rompeu o silêncio com a sua peculiar gargalhada. Fingi que nada escutei e olhando o horizonte longínquo prossegui meu assoviar. Ele insistiu na sua rizada e depois fez silêncio novamente. Sua pausa no sorrir quase me fez parar e voltar para ele meus olhos, mas resisti e continuei minha canção. (♪♪♪♪♪ ♪).
Quando sua voz estridente exclamou.
- Rosália! Rosália era o nome dela...
Fez nova pausa e reiniciou.
... Rosália era a nigrinha mais bunita do arraiá de Zoi d’água. Ara, se era! Naquele tempo tinha uma moçada bunita pur dimais no arraiá. Mas, Rosália era a mais bunita delas tudo...
Pensei em interromper e dessa vez até me virei para ele como que introduzindo minha fala, ele continuou como se nem ali eu estivesse.
- Nóis era uma molecada dóida, tinha os fiio dos rico, os que risulvia na cidade e no arraiá de Zoi d’água, mode que naquele tempo, cá nem cidade era. Num tinha nada de munícipe não sinhô, hoje é que as coisa tá tudo aí, tudo fáci! Mas naquele tempo, tudo era uma dificuldade só. Quorqué coisa só arrisurvia no Forte, hé sim sinhô, no Forte! Mode que hoje o Forte tá cabado e sem recurso dependeno de São João, mas naquele tempo era o invéis. Tudo tinha que discambá serra abaxo pá mode arresorvê. Ô intão ia logo pas Formosa, que era adonde anté o povo do Forte, buscava socorro. Mas isso já é ôto causo...
Rosália mais eu crescemo junto namoremo e cheguemo a juntá os pano de bumba... È!!! Nóis ajuntemo os trapinho, mode dinheiro que é bom, nóis num tinha, antonce, casá Cuma?
Nois pranejemo e adicidimos, nóis ajuntava e ia peças bêrada de mato aí desses home rico que tem muita terra e ai nóis tocava a vida. Aderrubava um taco de chão fazia um rancho, uma roça e prantano na meia cumo a maioria fazia, nóis ia viveno. Ahra!!! Pobe vevi é ansim... E anssim nóis feis... Cum prazo de mêis ô mais, já tinha nossa choça de chão batido e páia de indaiá na bêra do Lajêdo, num taco de mato do véi Filipe Crisóstomo. Home bão pur dimais, que tinha aqui nesse tempo. O véi era pôde de rico e bão pá sirvi de dava gosto. Fosse sério e cumprisse o compromisso qu’ele, num dava dezenove de jeito nenhum, muita gente viveu de meia cum seu Filipe.
Bão eu era molecote novo, pas bêra dos vinte e dois ano e Rosália tinha feito vinte, era moça bunita, trabaiadêra e todo mundo anté aispantô dela juntá mais eu, que pelas prenda da moça anté que arranjava casório mió, bão mais coração é terra que ninguém andô, ela se aingraçô foi com o moreno aqui e cabô juntano os trapo mais eu.
Conde ela tava pá parí, de sete mêis pá riba, já tava a barriga dela, e ela inda ia pá lida mais eu. Ô muié que num rifugava serviço, era Rosália! Cum quais um ano de morano junto, as coisa ia andano bão pur demais... Se a roça desse o que prometia ia tê fartura, o rancho tava pronto e nóis morano junto... O diabo foi a jaracuçu!
Ela foi pú córgo, mode alavá as rôpa e os trem de cuzinha, eu fui pú roçado, achei esquisito qu’ela num levô café di tarde, e num apareceu lá a tarde intirinha. Fiquei mei aprecupado, mas cuma indéra cedo, nem fui vê se tinha dado errado narguma coisa, fiquei na roça, mode que tinha muito sirviço.
A boquinha da noite, me deu uma sisma, e inda sem merenda, nem um cafezin Rosália tinha ido levá. Rapais e lá fui eu pú rancho mode vê cuma ela tava. Cheguei no rancho ela num tava, me deu um aperto no coração e um isfriamneto no vazii,  eu curri pú córgo. Cheguei lá quais num criditei naquilo que meus zói me mostrava. Ela tava caída e morta que já tava fria! No pé do quêxo, as prêsa da mardita tava lá, inda fazano sangue. Ôh hora, disassussegada na vida, minino!
Carreguei ela pú rancho, peguei o cavalo e rapei pá casa de seu Adélio, que mora pertim, coisa de meia légua, aixpliquei o acunticido e apidi a carroça emprestada mode levá Rosália pá casa da véia Martinha mãe dela, adonde nóis feiz o velóro. Ansim cabo meu unico e verdadêro amô. De lá pra cá, eu tive um mucado de laprego aí cum muié de tudo que é tipo, mais amá mêmo foi só Rosália e mais ninguém! Num cheguei a vê a cara do nosso fiio que morreu no bucho da mãe! Mas deus sabe quê que faiz!!! Dispois uma muié que me inrrabicêi lá pús lado do quilombo, uma tar de Maria Zóim, anté ande adizêno que apego um bucho meu, mais nunca me incomodô cum nada e eu tamém é que num quis sabe! O nigrin qu’ela fala que é meu fiio tá home véi já, mas nunca falemo disso. Anté já girêmo fulia junto uns tempatráis.
Assim ele arrematou a sua história de amor e sem mais delonga deu uma tragada no pito, sua face não demonstrava nenhum transtorno em razão d’aquela narrativa. Achei até que ele estava cum semblante mais alegre.
Eu contava meus doze anos, se bem me lembro, e cheio de curiosidades.  Quase morri de susto, quando com aquele riso flácido Valdeci, virou-se para mim com o pito na boca e tragando-o perguntou-me.
- E ocê minino? Ocê é molecote ainda, e num ranjô muié, mode que o minino demais. Mais ocê já viu um tixé? Hê, hê, hê, hê, hê... E se riu largamente.
Aquela pergunta de Valdeci quase me quebrou ao meio, jamais pensei que ele me perguntasse tal coisa. Abaixei minha cabeça enquanto ele continuava a sorrir, com aquela simplicidade que lhe era peculiar. A última frase que ainda o ouvi dizer antes que saísse dali constrangido e morrendo de vergonha, foi...
- tixé é trem bão demais! Ocê já tem idade pá cunhecê o trem, e conde ocê cunhecê... Hê, hê, hê ,hê, nunca mais vai querê vivê sem tixé! Anté eu que sô besta gosto dum tixé... Eu cum sua idade já bulinava nas minina... cum oito ano eu mais Guilé já brincava de relaxo...  Guilé era fiia duma subrinha di papai que morava lá pernto do rancho nosso. Ôh Guilé que era boa de relaxo! Hê, hê, hê ,hê...
Saí correndo em disparada pelo desconforto que aquelas falas de Valdeci me trazia. Sai correndo e nem se quer olhei para trás! Ainda assim podia ouvir sua risada estranha decrescer continuamente atrás de mim até que a distancia a fez inaudível.
No outro dia, quase não acreditei, acordei cedo e fui para a escola, ainda no recreio soube da noticia que corria. Valdeci não veio trabalhar, pois havia morrido a noite. Pelo que se dizia foi problema do coração.
Valdeci era amigo de minha família, de meu pai e de minha mãe, e era também o guarda da escola. Acho que lhe arrumaram o emprego para que ele não ficasse sem ter dinheiro nem para comer. Pois ele vinha doente, não tinha ninguém por ele, mas era muito querido pelas pessoas mais velhas da cidade, que acabou por arranjar-lhe o emprego de guarda da escola. Em razão de ser amigo de minha família acabei por me afeiçoar a ele, pois tirando as horas em que ele dava pra falar besteiras e quase me matar de vergonha, ele me contava boas histórias e sempre me cuidava quando algum moleque maior queria me bater. Coisa que sempre acontecia, já que eu era um bom aluno e participava das aulas com esmero e isso provocava a raiva de alguns colegas da classe. Coisas de meninos!
Fiquei triste pela morte de Valdeci e nem fui ao seu enterro, tinha medo de defuntos. Mas uma coisa Valdeci plantou em minha cabeça, coisa que até à tarde antes de sua morte, quando conversamos sobre sua história com Rosália, eu não tinha tido curiosidade a respeito. Não tirava de minha cabeça o que ele dissera sobre o “tixé”. Eu não compreendia bem o que era, embora soubesse que era coisa de mulher. Sabia que era uma coisa que as mulheres tinham entre as pernas e que era diferente das coisas que os homens tinham entre as pernas, mas nunca tinha visto aquilo. O curioso disso tudo é que eu tinha três irmãs, no entanto nunca tinha visto.
Nós éramos nove, seis homens e três mulheres, todos criados num rigoroso sistema de educação. Papai era homem do inicio do século, forjado no carrancismo. Sua educação rígida e impertinente dividia clara e inequivocamente o que era próprio de homem e o que era próprio de mulher e nada de misturas era permitido.
O quarto das meninas era separado do quarto dos meninos e a entrada de meninos no quarto das meninas era permanentemente proibida, bem como a entrada das meninas no quarto dos meninos, o que se dava somente com supervisão da mãe ou com a ausência dos meninos. Pois meninos e meninas não podiam ficar juntos no mesmo quarto, pois meninos e meninas são danados pra inventar moda, assim falavam os adultos quando se tratava deste assunto.
Assim, com o tixé a tomar meus pensamentos decidi que ia ver um de perto e descobrir o que podia ter de tão bom em um tixé. Mas não era fácil assim, os mais próximos era de minhas irmãs e era algo impossível. Qualquer aproximação era certeza de que apanharia e ficaria de castigo. E isso era tudo que eu não gostava, preferia ficar sem descobrir o tixé, a ter que suportar uma surra de pai e mãe. A surra de mãe era terrível, mas até que eu suportava, mãe batia mais suave e batia quase todo dia, de algum modo já estava acostumado. Mas um caso desses, de relaxo com uma irmã, seria surra de pai com toda certeza, e aí meus amigos a coisa tinha outra conotação. A surra de pai, além de muito dolorosa, de deixar marcas e machucar o corpo, ainda machucava a alma, a dignidade, a moral. Era a declaração última de que você foi reprovado no controle doméstico de aprovação dos filhos. O pai era que mensurava quem era o bom filho, e quem seria o seu substituto em caso de sua ausência. O primogênito tinha isso por incumbência natural, mas nem sempre ele consegue desempenhar essa função de modo a agradar os irmãos, a mãe, e em fim o pai. E uma contravenção dessas seria o fim, você estaria para sempre impedido de ascender aos gostos do pai. Ser cortejado e aclamado pela mãe contava no avaliar do pai, mas a última palavra era dele. Filho que mexia com as irmãs era réu, sem direito a perdão. O curioso é que me escapava por completo o que era esse relaxo, que era proibido. Sabia se apenas que era algo permanentemente vetado, ás crianças. E se você tentasse aumenos conversar sobre o assunto já era contravenção suficiente para levar uma surra, alguns puxões de orelhas e ter a boca lavada com sabão de soda, pra criar vergonha na cara e tomar respeito. O tal do relaxo era coisa que adulto gostava e fazia. Mas criança, nem falar podia. O relaxo estava diretamente ligado ao tixé, havia entre eles, uma intrigante ligação.
Assim nesse universo tão rígido que era o universo doméstico de minha infância decidi que me arriscaria de algum modo, para chegar ao tixé.
Bem, o assunto anda a todo vapor, mas preciso calar esse menino pra falar de algumas outras coisas necessárias à inteireza do conto. Me  permita meu caro leitor, perturbar a ordem das coisas e apresentar a vocês o nosso personagem, o contexto dos fatos e alguns detalhes mais que me parecem oportunos, pois até o momento não o fiz.
Esse garoto é o André, mais em sua casa chamam lhe de Dezinho! Dezinho é filho de um casal de lavradores goianos que vivem em São João d’Aliança, um pequeno município do estado de Goiás. Um lugar maravilhoso, onde Dezinho viveu seus dias e onde viveu sua história com suas estórias. Bem estou a contar esse causo, no intuito de registrar algumas coisas dessa terra, mas sobremaneira por que vejo que o mundo mudou demais e infância como a que viveu Dezinho já não existe mais, se é que de fato tenha existido. E, além disso, Dezinho é meu amigo e vive me importunando com incômoda insistência para que eu conte algo sobre ele e suas pueris aventuras. Até aqui caminhamos entre uma série de divagações e assuntos que serviram apenas para citar a razão deste causo, o tixé. Pois bem, prossigamos!
O causo já principia complicado pelo próprio nome.  TIXÈ!
Um amigo que estudou veterinária e é um exímio contador de causos, numa destas rodas de prosas contou-me que existia uma doença que acometia equinos na França do século XV, e que por volta do ano de mil seiscentos e onze, muitos equinos teriam morrido em razão do mal de “Tic”, termo usado para designar tal enfermidade que consistia no contrair constante dos músculos do animal. O Tic principiava-se com as contrações faciais e ia se estendendo ao logo dos músculos até paralisar o cérebro e todo o sistema neural do animal, que em estado avançado da doença não mais podia controlar. Se não controlada a doença levava à morte por paralisia generalizada. Os músculos contraiam-se, contraiam-se, contraiam-se, até que ocasionavam uma lesão e o animal perdia o movimento. Tal situação por alguma razão que não nos foi possível alcançar levava o equino a contrair-se até cair morto, num enrijecimento completo, onde depois a flacidez funesta domava enfim os músculos da vítima.
 A prática da zoofilia não é nova, desde as primitivas sociedades Mesopotâmicas que se tem relatos desta prática sexual. Desde o seus mais antigos relatos que há uma grande resistência contra tal prática o que acalabouçou-a nos secretos locais de sua prática, longe dos olhos do público. Nos livros bíblicos há prescrições veementes contra a zoofilia, no entanto, esta práxis sexual nunca desapareceu. Neste século XV, não é diferente, alguns aldeões utilizavam suas éguas e jumentas de trabalho para a prática de tal pecado. Embora fosse duramente castigado pelos clérigos, quando descobertos, na verdade esse pecado era mais comum do que se pensa hoje. Desse modo, a doença do Tic contaminou alguns homens que teria levado a doença a humanos. Uma vez que havia homens contaminados a doença se espalharia. De fato foi o que aconteceu, logo as meretrizes após terem relações sexuais com aldeões contaminados, tinham contrações e inchaço na vulva causando grande dor e sofrimento. Se não tratada a doença ia apodrecendo as genitálias. Embora seja a narrativa meio duvidosa, o fato é que as mulheres que tinham a doença por sua contração muscular constante caiam no gosto dos clientes e sua fama corria a aldeia o que ajudava a disseminar a enfermidade. No entanto essa doença acabava por manifestar-se mais cedo nas mulheres e com menor violência do que nos equídeos. Assim as aldeãs aprenderam a controla-la com beberagem de ervas e banhos, remédio similar ao usado no tratamento dos equinos. Nos equinos não se tem notícia do que virou a doença. Nos humanos, porém, a doença foi controlada pela medicação, sem nunca desaparecer completamente.
Em razão dos comentários que ganhavam a boca do povo, as mulheres portadoras da doença logo ficaram denominadas de tixé, Termo que é na verdade a aglutinação no nome da doença, Tic, mais a vogal o, que em razão da pronúncia ganha sonoridade próxima da fonação da vogal é. Assim no Brasil, mais especificamente nas regiões do Rio Grande do Sul, Goiás e Bahia, ganham a escrita aportuguesada de “tixé”. Assim o termo que era usado para se referir às portadoras do Tic, (Tic ho) com o trânsito transatlântico e a transmutação fonética veio de algum modo para o Brasil, onde deu origem ao termo “tixé” que é designação usada para se referir às genitálias femininas. Mas tudo isso nada mais é, do que especulação. Especulação de um amigo veterinário, contador de causo.
Assim desconhecendo a etimologia da palavra não me aterei mais a essa feita visto que preciso é, continuar o caminho de Dezinho em sua busca pelo tixé.
Como em toda pequena cidade de interior o convívio de família é sempre próximo e a parentela se mistura e se visita constantemente, nas mais diversas ocasiões e poucos parentes são tão próximos como os primos e primas. Estes marcam a história de quase todo mundo, por dividir sonhos e peripécias, das mais variadas, Dezinho tem uma grande quantidade de primos e primas que lhe preenchem os dias.
A casa de Dezinho é uma grande e singela residência, assim como as casas das pessoas de sua classe social. Todos os que tinham o mesmo poder econômico na linha da média do da família de Dezinho. Tinha gente com melhores condições, os ricos da cidade e a classe média, que não era pobre com estes nem ricos como aqueles. O engraçado é que ainda tinham famílias que sobreviviam com bem menos que a família de Dezinho.
Dezinho tinha muitos irmãos e irmãs como já fora dito, mais nenhum lhe é tão próximo quanto Zequinha. Zequinha era mais novo do que Dezinho, mas os dois eram amigos de toda hora, cúmplices nos sonhos e travessuras.
Zequinha ainda com menos de dez anos não, se preocupa muito com o cumprimento das ordens domésticas, todo dia levava uma “pisa” como diz a sua mãe Alfreda, mas não aprende, vive se metendo em confusão. Dezinho como já tem uma noção maior dos riscos e das punições que as travessuras trazem, é menos afoito nas travessuras e as arquitetam para que Zequinha as coloque em prática com sua ajuda, e muitas vezes sozinho, quando a arte é muito arriscada e a “pêia” será certa.
Assim Dezinho, pensa um modo de junto com Zequinha conseguir em fim chegar ao seu grande objetivo, ver de perto o tixé.
Debaixo do pé de abacate que ficava no centro do grande quintal da casa, estavam a brincar os três irmãos. Lucinda, Dezinho e Zequinha, estavam absortos na fazendinha fabricada com os frutos pecos da mangueira que carregada de pequenos frutos fazia a seleção natural dos que vingariam e seriam consumidos como fruta madura garantido sementes e manutenção da espécie e os que seriam abortados e virariam adubo debaixo da frondosa árvore. Ali as pequenas frutinhas que caiam viravam bois e cavalos e tudo mais que a imaginação pudesse criar. Neste universo estiveram as crianças a tarde toda, desde a hora do almoço. Até que por volta das dezesseis horas as mães das crianças as chamam, para merendar. A merenda é bolo de panela com café. Pedaços contados para que todos possam comer um pedaço do bolo. Os presentes comem na hora os ausentes tem seu direito garantido, pelo cuidado materno que lhes guardam a fatia de direito.
Quando ainda tomavam o café eis que chega a irmã mais velha Jacinta, ela não mora mais com a família. Jacinta sofre muito por não morar mais com a família, e às vezes sente se rejeitada, pois no conjunto dos nove ela foi a única que o pai autorizou e até obrigou a ir morar na casa de um primo mais rico para trabalhar e estudar. O fato é que o Jedson é sobrinho de Antônio pai de Jacinta. Ele tem dois filhos, mas ainda são pequenos Ambrosina de onze anos e Alfredo de sete anos, e como ele tem um bar e restaurante que está indo muito bem, pediu ao seu tio que desse lhe sua filha mais velha para morar em sua casa, isso ajudaria a aliviar em casa pois seu Antônio teria uma boca a menos para sustentar no auge de seus sessenta e seis anos de idade, com sua doença e fraqueza. O negocio pareceu muito bom a Antônio, afinal o sobrinho era de sua confiança, a Jacinta já era moça e contava quatorze anos. Ademias o sobrinho prometeu cuidar da Jacinta com o mesmo zelo com que cuida da própria filha. Prometeu dar estudo e até alguma remuneração, Quando Jacinta souber fazer as coisas. Antônio está velho e doente e nada lhe dói mais que a certeza de que não verá seus filhos adultos, não conseguirá criar sua família. Ele volta e meia cantarola uma canção triste cujo refrão é: ai ai ai fiio de pobre não tem pai... Cada vez que Dezinho escuta ele a cantarolar tal refrão ele chora em seu interior pois por algum motivo isso remete seus pensamentos à morte de seu pai, que deixará todos os filhos sem a presença do pai.
A notícia de que Jacinta vai orar com o sobrinho de Antônio causa embaraço, dona Alfreda odeia a ideia e não quer ceder, mas em casa de Antônio mulher não manda, obedece, foi assim que ele foi educado e é assim que ele age. Está decidido, tudo acertado, e será bom pra nossa filha, argumenta ele com a esposa.
A mulher não suporta pensar que o marido está dando os filhos e chora, diz a ele que ele não confia nela, pois acredita que está morrendo e por não confiar que ela dará conta de crias seus filhos está dando os filhos como filhos de ema. Encerra asperamente a conversa e o mau estar entre o casal está instalado e durará muitos dias.
O dia amanhece e Antônio antes de ir pra roça deixa a ordem.
- prepara os trapin de Jacinta que de tarde quando eu voltar da roça vou levar ela pra casa do Jedson.
Abençoa os filhos, monta em seus cavalo e sai.
Assim Jacinta deixou o convívio da família, mas apesar desses momentos de sentir se rejeitada pela família, apesar de sentir se explorada por Jedson e sua esposa que lhe acordam cedo demais e só a deixam dormir altas horas depois de ir embora o último cliente, Jacinta gosta da vida que tem. Ela é uma moça muito bela, pele branca, longos cabelos pretos, lábios carnudos e boca grande com grandes e brancos dentes. Agora ela usa roupas boas, muitas são usadas que ela ganha, mas são roupas boas, ela ganha tanta roupa que até leva algumas para suas duas irmãs menores que vive na casa paterna.
Quando saiu de sua casa levou em um embornal umas poucas mudas de roupas encardidas e gastas pelos constantes usos. Unhas sujas e mãos sempre pretas do fogão de lenha onde cozinhava para ajudar a mãe. Nem chinelos ela tinha, andava de precatas remendadas, cujos pés tinham duas corres diferentes, que se ia aproveitando os pedaços das mais velhas que ainda podia ser aproveitadas. Ela lembra com dor e vergonha quando chegou à casa de Jedson sua esposa Aninha lhe recebeu com desdém e chacoteou dela por seu jeito  matuto e sujeira. Ela lembra que levava, no peito ela levava muito medo e apreensões, no embornal, somente tudo que tinha algumas poucas e velhas roupinhas, que na primeira semana foram jogadas fora por Aninha, todas elas sem exceção. Aos pés levava uma precata de gastas sandálias havaianas, de duas cores, um pé azul e outro amarelo as correias remendadas com pedaço de tecido jeans grosso cuja mãe por não ter dinheiro para comprar sandálias novas improvisara um botão para o par de sandálias usadas.  Nunca havia sido tão humilhante e desesperador a vida de pobre para Jacinta como neste dia e nos dias que se seguiam. Mas ela se adaptou à nova vida e se saiu bem ali viveu longos anos, mais de dez servindo sempre. Nunca ganhou nada além de trabalho moradia roupas e comida, estudou no grupo escolar como todo mundo, escola pública, única que tinha na cidade. Ali também conheceu o homem com quem se casou, ocasião em que deixou a casa de seu primo Jedson. Neste tempo seu pai já havia morrido e ela achava que afinal ele fez a coisa certa. Três ou quatro anos depois que seu pai a deixou na casa de seu primo ele veio a falecer.
Assim enquanto os irmãos menores comiam bolo de panela com café na merenda Jacinta chegava com seus dois primos e agora irmãos, Ambrosina e Alfredo. Os irmãos, Lucinda, Dezinho e Zequinha adoram quando Jacinta vai para a casa de sua mãe com as crianças, pois a festa é uma só. Vão brincar até anoitecer de pega-pega, bandeirinha, etc. as travessuras estão garantidas. Assim terminam de comer e ganham o quintal as cinco crianças, na cozinha Jacinta conversa com sua mãe e conta como estão as coisas na casa de Aninha. No quintal a criançada se desmancha em gritos risos e correrias.
N casa de Dezinho não tem banheiro moderno como nas casas dos ricos, ali se usa a antiga casinha, ou privada. Uma latrina feita rudimentarmente. Abre se um profundo buraco no chão, cobre-se de madeira fazendo um acoalho com um pequeno buraco no centro, sobre-se as paredes e cobre-se está aí a descrição da casinha, ou privada, como achar melhor. A menina Ambrosina tem pavor de fazer suas necessidades naquela privada. Além Do insuportável cheiro que sobre da fossa cheia de dejetos, ainda tem as baratas que ali fazem residência e estão o tempo todo a circular em profusão. Assim ela faz suas necessidades no quintal, seja xixi, ou cocô. O rito é sempre o mesmo. Os meninos vão tomar água e deixam o quintal para a donzela se sentir a vontade para se aliviar de suas necessidades.
Dezinho nunca tinha pensado em observar a prima Ambrosina enquanto ela descia sua calcinha e fazia suas necessidades. Até que na noite daquele dia enquanto jantavam todos sentados no velho banco de angico que seu pai sempre fazia questão de dizer que tinha mais de cem anos e que fora feita pelo seu pai Victor. Ali todos sentados comiam e conversavam, quando Zequinha noticiou que viu, a prima Ambrosina fazendo cocô detrás da privada. A conversa gerou indignação de alguns que teve nojo e tudo virou uma bagunça, até que a mãe entra e faz todos parar de falar besteira e comerem logo. Mas, mau a mãe sai da cozinha Dezinho volta ao assunto e pergunta a Zequinha o que ele viu. E ele taxativo diz.
- Eu vi Ambrosina cagando detrás da privada! Ela não tem pinto, ela tem um rachadinho, bem assim, faz o gesto levando a mão ao genital no sentido de demonstrar como é o rachado que ele viu.
Alguma das irmãs grita em tom de predominância e elementaridade.
- claro seu burro, mulher tem tixé e não pinto!
Pronto, está aí uma definição que nada define, mas que acirra a curiosidade de Dezinho.
A mãe volta ameaça bater em todo mundo se não pararem de falar essa relaxêra, e tudo se desfaz.
Na próxima oportunidade, Dezinho já tem um plano e vai coloca-lo em prática para ver o tal tixé que a prima tem. Em casa não pode, com as irmãs nada pode ser feito, mas com a prima se tomar cuidado poderá ser feito e então ele verá o famigerado tixé.
Na tarde do dia seguinte, tudo acontece com a mesma normalidade lanche e logo em seguida chega a irmã e os primos.
Antes porém é preciso contar algo sobre essa família de Dezinho.
A família é o resultado de uma inusitada relação. Antônio era casado, sua mulher alcoólatra e como os filhos já haviam sido todos criados, estando o mais novo com dezenove anos, decidiu Antônio deixar aquela mulher que lhe trazia muitos e profundos desgostos e constrangimento, muitas vezes chegando aos domínios da violência. Assim abandonou a mulher com quem vivera toda a sua juventude e com que teve e criou onze filhos, somando ainda outros três que a mulher já tinha antes de ir morar com ele, assim perfazia-se o total de quatorze filhos.
Uma vez solteiro, enamorou-se de Alfreda, moça jovem bela e trabalhadeira, não tardou e juntaram-se em uma família. Logo começaria a nascerem-lhes os filhos que também foram um total de onze, sendo que dois faleceram quando crianças.
Antônio nascera em mil novecentos e quinze, foi educado por seu pai de século anterior ao seu. Um baiano sistemático e valente que nunca levou desaforo para casa. Quando jovem nos sertões da Bahia, lá pelos idos de mil oitocentos e oitenta era Victor pai de Antônio um destemido jovem cangaceiro. Lutava contra os desmandos dos coronéis de sua região e dos abusos dos ricos e valentões que ali se tinha em quantia. Assim cansado daquela vida de carestia e escassez, acossado por grande fome em um dado ano de sua mocidade, acertou as contas que tinha e junto com um irmão ganhou o mundo em direção das minas de Goiás para encontrar riqueza e prosperidade. E assim veio a conhecer a bela Joana uma Jovem mineira. Com quem casou e teve muitos filhos, dos quais Antônio era o quinto.
Assim foi Antônio educado nesse mundo de homens valentes e viris até no sonho. Aguerridos trabalhadores, capazes de arrancar com a força de seus braços e o suor de seu rosto fruto da terra.
Porém já era Antônio um homem velho, quando desposou Alfreda. Antônio contava cinquenta e seis anos e era vinte e nove anos, mais velho que a bela moça. Isso, porém não foi obstáculo para o amor entre os dois viveram juntos até que Antônio morreu e tiveram juntos onze filhos, sobrevivendo nove, dos quais seis foram homens e três mulheres.
Nessa casa de Antônio e Alfreda, sobressaiu sempre a rigidez e o cuidado com o educar dos filhos. Ambos eram de educação antiga e sua situação de analfabeto mantinham vivos as crendices, mitos, lendas, medos e tabus. Que na ruralidade singela do sertão são instrumentos pedagógicos de educação e de criação dos filhos. Assim foi educada a prole do casal.
Isso ajuda a entender como um menino de doze anos vivesse uma inocência, e uma ignorância tão grande sobre questões de sexualidade e mais questões de ordem anatômica básica. Entender que mulher e homem possuem corpos com diferenças. Mas não ali era tudo muito restrito e as brincadeiras eram as mais inocentes do mundo. Dividia se o pão, o trabalho, os sonhos, os medos, as alegrias, as brincadeiras e as travessuras, e também a simplicidade, a ignorância e a inocência.
Quando a curiosidade já consumia Dezinho, ele decidiu chamar Zequinha e tramar o que fazer para ver o tixé de Ambrosina. Assim eles ficaram detrás da privada, e como eles já sabiam pois faziam a mesma arte para assustar as irmãs enquanto estas usavam a privada. Encheram as mãos de terra e jogaram no telhado da privada. Quando aquela multidão de grãos de terra tocaram as finas talhinhas de amianto que cobriam a privada, o berreiro e gritaria foi enorme. Parecia que uma tragédia havia acontecido. Ambrosina com a calcinha pelos joelhos segurando o vestido florido na altura da cintura exibia seu quadril arredondado e suas rijas e sedosas nádegas, de brancura ofuscante, e inesquecível encanto, correndo desesperada gritando Jacinta, que ouvindo os gritos, já vinha em seu socorro. No afã de correr e se esconder pode Dezinho por breve momento apenas contemplar a jovem menina com seu corpo exposto pelo ângulo traseiro. Viu que ela tinha bunda grande e dura, branca e bela e aquela visão ficou gravada em sua mente, mas como Ambrosina corria ele viu tudo de relance e não pode observar a rachadura dianteira como fez Zequinha que correndo para amoita de bananeira a frente da privada, viu pela segunda vez o tixé da prima, que conforme contará a Dezinho, tenha uns cabelos que pareciam uma barbinha e que era branco tão branco quanto a bunda.
O resultado não é difícil de imaginar Dezinho não viu o que queria por que se escondeu, Zequinha viu e não correu, apanhou e ficou de castigo. A promessa para Dezinho ficou feita, pois Zequinha não aguentou apanhar sozinho sem delatar de quem havia sido o plano. Neste caso o tixé não foi visto, mas gerou uma imagem mais clara do que Dezinho poderia imaginar que fosse um tixé. Um milhão de pensamentos pululou a mente do menino durante tempos. Afinal a prima foi cercada de cuidados para não precisar usar a privada na casa de Dezinho e quando isso era necessário a defensora de Ambrosina, a irmão de Dezinho, Jacinta, colocava-se na porta da privada com um cipó á mão.
Somente um ano depois, com seus treze anos, o menino Dezinho, com seu irmão e uma infinidade de primos foram com dona Dorcas tomar banho no olho d’água, uma caudalosa mina da pequena cidade onde as famílias ia tomar banho em dias quentes. Assim quando da visita de um dos irmãos da primeira família do pai de Dezinho, a cunhada Dorcas levou uma quantia de dez ou doze meninos e meninas para tomar banho no olho d’água. E como uma das sobrinhas de Dezinho estivesse sem calcinha, todos tomaram banho juntos e nus, toda a molecada coordenada por Dorcas, juntos e nus. E assim pela primeira vez. Dezinho pode ver uma grande quantidade de tixés juntos. Foi bastante constrangedor para ele ficar pelado ali com tantas meninas juntas tomando banho e brincando sem malicia. Mas em sua mente e em seu coração, ainda sem conhecer nada a malicia foi plantada pelas palavras do velho Valdeci, que a tempos atrás lhe falara do tixé e de tantas coisas gostosas que o tixé pode proporcionar. Dezinho ainda não entende nada disso, mas agora ele conhece o tixé, com seu formato estranho, sua abertura horizontal e toda a magia que intrigantemente ele carrega.
Num dado momento Elizangela de nove anos, uma das filhas do irmão de Dezinho subiu no barranco do poço chamou a atenção de todos e ficando de cócoras abriu as pernas e arreganhando o tixé, fez xixi profusamente causando o riso de muitos e levando uma grande bronca de sua mãe que mandou imediatamente fechar aquela coisa. Uma das cenas mais esdrúxulas que Dezinho viu naquele dia, envolvendo o tixé. Ele voltou para casa ruminando tudo que tinha visto e aprendido e certo de que um dia teria um tixé só seu para entender todo o mistério e encanto contido ali.

Esse é o tixé!

___________________________________________________________________________________

CONTO 04



BELPHEGOR
A PREGUIÇA DO ARCAICO A TEMPO PRESENTE
A velha desdentada e suja arrasta-se com dificuldade pelas ruelas fétidas daquele lugar. O silêncio domina a noite fria e somente ora ou outra algum gemido distante perturba o ambiente, concorrendo com o ecoar de esparsas e longínquas vozes a tilintar pela penumbrada cidadela de Moabe. Em sua cabeça uma voz insistente ecoa em um refrão ininterrupto.
... Joene, Joene, Joene...
Ela se ri e meneia a cabeça num bailado esquisito.
Um clarão se faz e lá está ela jovem e bela a bailar em um longo e branco vertido de seda que só os Assírios sabiam produzir com tamanha alvura.
O sangue do sacrifício derrama-se no altar de Belphegor e ela se rejubila ao som das citaras e das harpas que entoam cantos e levam a assembleia ébria e possuída a adorar o deus dos moabitas num grande festim, de invejável idolatria.
Joene é a bela moabita responsável pelo festim.
Joene está em festa a Belphegor, pedindo uma resposta, uma estratégia para seduzir os adversários que estão acampados a alguns quilômetros no intento de  tomar a cidade de Moabe. O sitio dura já alguns dias e a fome e o cansaço castigam os inimigos. Mesmo sua fé já começa a fraquejar, seja qual for o deus a que eles servem, no olhar de cada soldado está estampada a preguiça de continuar o sitio em busca de ora oportuna para o assalto.
Mas antes que eles atacassem ela orou em sua tenda e evocou o grande Belphegor e assim a ale consagrou-se, pedindo a ele, que é um deus inventivo e poderoso, um ardil que envolvesse o inimigo e os colocassem em sua s mãos.
Assim enquanto dormia em sua tenda, ela recebeu a visita de Belphegor, que lhe possuiu com sua língua fálica, e a fez copular com ele copiosamente durante toda a noite. Enquanto era possuída pelo demônio era gerado em seu coração o plano para vencer o inimigo.
O dia raiava quando chegava a primeira caravana de batedores dos inimigos, para negociarem a rendição de Moabe sem violência, mas antes que o sol acordasse, Belphegor  já havia partido  e deixado Joene na entrada da cidade, pronta para agir.
Assim ela correu nas sete tendas dos sente descendentes de Ló, o fundador da cidade de Moabe e pegou uma virgem de cada casa. E as conduziu até a entrada da cidade, onde esperava a chegada dos inimigos. Todas vestidas de belas sedas assírias exibiam seus belos corpos em requintados vestidos e indisfarçáveis adornos. Quando chegaram os sete cavaleiros da caravana de batedores, foram seduzidos pelas virgens de Moabe e arrastados para suas tendas, onde as possuíam e foram vencidos por Belphegor.
Sete dias se passaram até que uma nova caravana chegasse à cidade. E quando esta chegou lá estavam novamente as mulheres de Moabe, belamente ornadas e armadas para seduzi-los e leva-los ás suas tendas. Assim se sucedeu sete vezes com sete caravanas, até que por fim todo o acampamento inimigo marchou sobre Moabe e grande foi o espanto deles quando lá chegaram e encontraram suas sete caravanas de batedores mortos e sacrificados a Belphegor. Seu sangue era queimado numa pira de sacrifícios e frente à tenda de cada chefe. Havia sete cabeças espetadas numa estaca exposta como troféus.
O povo em algazarra dançava e cantava e grande era a festança que ali acontecia.
Ao ver se aproximar dos portões da cidade aquele cordão de homens do exercito inimigo, os principais da cidade reuniram-se em conselho e evocaram Belphegor. Sua resposta foi dada pela boca de Joene, que apresentando se aos anciãos disse:
- Não pegueis em armas. Nada será do vosso modo, eis o que diz Belphegor. “Façamos uma grande festa e não sesseis de cantar e dançar e de sacrificar a baal, pois nosso ócio, e nossos vícios são para ele agradável louvor”.
O mais velho da tribo dos moabitas tentou retrucar e convidar os homens a pegar nas armas e defender a sua casa, como sempre fizeram desde que ali se assentaram, mas Joene insistiu...
- Tragam suas filhas! Trazei todas elas, todas ornadas. Façais um grande banquete e cevemos, pois, estes varões, na preguiça e na folga. Assim engordaremos seus corações para uma grande matança. Assim diz o grande Belphegor.
Os homens do exercito inimigo entrarão nos muros da cidade ao cair da noite, precisamos correr e preparar a grande festa.
E assim todos confiaram em Belphegor pela palavra que ouviram da boca de Joene e aceitam o que ela disse.
Quando rompeu a noite e o sol desvaneceu no horizonte o pisar de uma multidão de homens encheu a cidade. Quando entraram no vale de Moabe até o momento de sua entrada na cidade uma névoa gélida e perfumada penetrava-lhes nos pulmões vencendo - lhes o vigor e enchendo os de um grande cansaço, muitos começaram a perguntar o porque de fazer aquilo. Se de fato havia razão para o que intentavam fazer e se melhor não seria selar a paz com os moabitas e formarem um a só família, servindo a um mesmo deus. Os pensamentos se confundiam em suas mentes e corações quando os sete anciãos compareceram ao pátio da entrada da cidade e os recepcionaram em grande alegria. Com musica e danças, conduziram os a uma grande tenda armada para a ocasião da festa, onde ao centro estava o altar de baal e a pira de sacrifícios.
Ali se falaram e acolheram-se mutuamente, carnes foram trazidas e vinhos foram servidos. E os homens se banquetearam em profusão. Nunca haviam comido carnes tão tenras e saborosas, pois não era prática de sua gente comer as carnes dos inimigos, tampouco era práxis do Moabitas, mas na ocasião era um brilho a mais na feste do demônio da preguiça, servir aos soldados as carnes dos seus. Nunca haviam tomado vinho tão bom e nem nunca haviam visto mulheres tão lascivas e belas, luxuriantes e irresistíveis. Uma paixão cega corroía-os por dentro.
Quando à meia noite o cantarolar das corujas anunciavam os agouros dos infernos, eis que todas as mulheres de Moabe se apresentaram à tenda ornada de pedras e belas sedas, exibindo seus corpos esculturais e enfeitiçando os soldados inimigos.
 Um ritual bacante se instalara daquele momento em diante e num instante todos estavam aos pés de Belphegor, cantando seus louvores e adorando o nas carnes das moabitas.
O bacante festim dura por toda a noite até as três da manhã.
Quando o sol raia os homens estão ébrios e adornados então as filhas de Moabe decepam lhes as cabeças deixando sobrar tão somente sete homens para regressar a seu acampamento e narrar - lhes a gloria e o poder de Moabe sob a proteção do invencível Belphegor.
Antes que a caravana dos sete remanescentes do exército inimigo parta é colocado no lombo de jumentos as cabeças decepadas dos homens e encaminhado um pergaminho que narra a noite de adoração a Belphegor. Embora somente sete sobrevivesse, pela misericórdia de Joene para testemunhar a gloria de Belphegor e o poder de Moabe.
Os soldados vencidos foram vitimas naquela noite tão somente pela força da preguiça que ele lhes infundiu por meio daquela névoa gélida no vale de Moabe à entrada da cidade, pois dos poderes de Belphegor, nenhum é mais eficaz do que a preguiça, Joene é o instrumento de Belphegor, ele a escolheu por entender que na pele de uma mulher, a preguiça ganha os corações com maios facilidade, sobretudo num mundo machista e dominado pela luxuria e pela embriaguez.
Assim o deus dos moabitas ganhou o mundo onde se fez eterno no corpo d todos os humanos, que adoram os festins bacantes de Belphegor, ainda que se camuflem nas mais variadas peles e escoram- se nos mais diversos credos. Escondem-se nos hábitos e batinas, nos quimonos e togas ocultam-se nas filas da comunhão, nos ritos batismais, nas festas de sacrifícios, no deitar e no levantar...  A preguiça está entranhada em seus genes, aqueles sete remanescentes da batalha ganharam outro caminho e nunca retornaram a sua aldeia. Partiram cada um a um canto da terra como semente. Tomaram mulher e tiveram filhos e nunca abandonaram os ritos moabitas de adoração a Belphegor, dessas sete tribos que se espalharam pelo mundo nasceram filhos e filhas que geraram a todos.
Como herança deixou aos seus Belphegor e o dom da preguiça.
A preguiça é o mais presente dos pecados. Hoje ela é chamada por muitos nomes, stress, falta de tempo, indisposição, medo, falta de oportunidade, necessidade... E ela continua a cevar os corações e a sacrificá-los na pira de Belphegor. Continuam os homens a comer a carne de seus semelhantes sacrificados dia após dia para gerar conforto. Continuam a tomar o doce vinho da preguiça, que lhes é servido a todo instante.
Escravizados pelo fascínio, da beleza e praticidade, ancorados no seio da preguiça, vivem o telemarketing, o tele sexo, o fast food, a televisão, cinema computador. Aposentaram o corpo e abriram mão do exercício físico. Assim Belphegor gerou a obesidade, as cardiopatias, hipertensão, diabetes, síndrome do pânico, xenofobia, antropofagia e antropopatia.
Nasceu então, uma infinidade de males causados pela preguiça. Preguiça de falar, preguiça de mexer, preguiça de andar, preguiça de trabalhar, preguiça de produzir, de criar, de sorrir, preguiça de amar, de pensar... Assim é o tempo presente dissimulando sua idolatria a Belphegor.
A bela e jovem Joene fora consumida pela preguiça e dilatou-se, transmutou-se virou névoa e espalhou-se pelo mundo inteiro, carregada pelo vento é chamada pelo desejo e preguiça, cujo germes estão intrínsecos à matéria humana. E embora ela seja uma velha suja feia e desdentada, inspirando morbidez e nefastidão, onde há um descentemente dos sente remanescente dos adoradores de Belphegor, ali ela está a lançar os cultos de seu deus o demônio da preguiça e estes a adoram bela e irresistível como também assim pareceu aos soldados inimigos naquele dia em Moabe.. Hoje velha e desdentada, pois a preguiça consome tudo que temos inclusive a beleza e juventude, Joene é um arauto de Belphegor, contra ela não há tranca e nem fechadura ela entra em forma de névoa e se instala em todos os lares, em todos os corações.
Todas as vezes que o germe da preguiça se insinua no ser humano e ele não está vigilante para refreá-lo o mantra silencioso, dócil e voraz traz de longe a força de Belphegor, no refrão mântrico a ecoar cálida e suavemente a canção da preguiça... Joene, Joene, Joene... Por que a preguiça  também é dom de deus, deus a amou, embora o trabalho dignifique. Pois trabalhou deus seis dias e quando a preguiça ouriçou-se em si, ele cantou... Joene, Joene, Joene... E deixou de criar e contemplou assim o Belphegor que em si havia desde sempre. Assim abandonou o trabalho e descansou, pois já havia criado o homem e a mulher, para prosseguir o seu trabalho, enquanto ele iria eternamente curtir sua preguiça, numa ironia antropófaga.
E desde então o mundo adora Belphegor incitados por Joene que entra pelas narinas e pelos ouvidos e preenche toda a extensão dos pulmões da mente e do coração fazendo se hóspede vitalício. Dormitando nos corações e atrofiando as almas até que esteja o individuo à sua imagem e semelhança, transmutado e enevoado pela língua fálica de Belphegor, a possuir lhe eternamente. Gerando assim uma infinidade de moabitas em todas as tribos e nações do mundo.


__________________________________________________________________________________________

CONTO N° 05

            A IMPRESSÃO

Eu estava morto, abatido pelo cansaço! Como que de súbito, semelhantemente a alguém que dormita suave e levemente e vai acordado por um ímpeto violento, assim tomei consciência do momento e então compreendi o que ali se passava.
Aliás, a bem da justiça, faço saber a todos que de fato eu dormia. Dormia aquele suave e irresistível cochilo que a rede proporciona em seu bailar de um lado para o outro por volta da ocasião da sesta. No entanto não estava eu numa rede e tampouco, gozava na oportunidade, de uma sesta. Estava eu no ensejo, viajando. Sim viajando!
É que a canção do veículo automotor embalava-me. Veículo que no caso em questão era um ônibus desses grandes, desses de cinquenta e tantos lugares. Era o ônibus que fazia o traslado de uma turma de acadêmicos, que por não terem uma universidade em seu município viam-se obrigados a viajar todos os dias até a cidade adjacente de maior porte onde podiam continuar os estudos e cursar uma faculdade. Indo assim cotidianamente para a cidade goiana de Formosa, na região nordeste do estado de Goiás. Então! Embalado pela canção do veículo, Canção que era um misto pouco harmônico e nada melódico, que dissecando em partes pode se dizer que se compunha de: barulho contínuo, gradativo e alternado, em razão da constante troca de marchas e aceleração do motor; vozes masculinas e femininas, em muitos tons e diversas intensidades variando continuamente entre o grave e o agudo; o ruído do atrito dos corpos uns nos outros; o uníssono grito do vento ao atritar contra o ônibus tornando se mais forte e voraz quando encontrando uma janela aberta, e por fim; os ocasionais ruídos dos demais veículos durante as ultrapassagens no trânsito.
            Era esta a canção que enchia o ambiente do ônibus.
Assim, num súbito despertei-me da soneca que dominava-me por certos dez minutos da viagem. Estes já eram de lei, a qualquer trecho do caminho a força do sono levava-me a abandonar a leitura e a adormecer leve e suavemente.
        A cabeça latejava, quase que doía, num profundo e agudo latejar. Uma sonoridade onomatopeica de mulheres em descontrole a gritar um grunhido de "aaahhhhh", em tom profundo, desconexo e assustado, fora o que me despertara arrancando-me do aprazível estado de sonolência em que me encontrava. Uma vez desperto, como já disse recobrei a consciência e pude entender o que se passara.
        O ônibus estava destruído, tombado no meio da pista, seus destroços misturavam-se aos destroços de uma carreta que transportava petróleo. Por sorte a carreta estava vazia.
        Vozes frenéticas falavam ao mesmo tempo e sem parar dificultando o entendimento. Confesso que ainda tomando consciência do cenário pensei mais em mim que no coletivo de nós todos, que ali viajávamos.
Senti-me aliviado por descobrir que estava vivo. Conferi-me de alto a baixo e aparentemente eu estava bem. Lembrei-me do celular, levei a mão ao bolso esquerdo da calça jeans que usava na ocasião e pude o sentir ali no tradicional lugar onde eu o acondicionava. Numa duradora sensação de alivio retirei do bolso o celular e apressei-me a ligar para casa, para do modo mais sutil, cientificar e tranquilizar minha esposa. Quando ela disse alô, um grande clarão se fez.
        - Não, não, nãããooo...!
        Ela despertara histérica a gritar numa ânsia angustiada tomando o folego em busca de ar. O suor banhava-lhe a face e o descompasso cardíaco a castigava. Ela acordava de um assustador pesadelo...
Era ainda cedo, a noite acabara de por na cama, o sol escaldante daquele fatigante dia trinta e um de agosto. Ela lavara toda a roupa da casa e arrumara a casa toda com a ajuda de suas duas filhinhas. Aquele sono no fim da tarde foi uma resposta do corpo ao imenso cansaço que sentia.
Ainda se recompondo do pesadelo ela sai do quarto e vai até a geladeira tomar água, alguém bate à porta, ela manda que a filha atenda e esta atendendo grita:
        -"mãe é a policia!”
        Ela quase se engasga com a água que tomava e num passo angustiado corre até a porta. Antes de ser educada com o policial rodoviário que estava ali de pé à sua porta, ela pergunta aflita:
        - O que aconteceu?... Eu tive um sonho horrível, um acidente, ele morria... Foi uma impressão, intuição, um aviso...  Eu sonhava que ele me ligava e antes que eu ouvisse o som de sua voz, tudo se perdia num clarão ofuscante. E dizendo isso começara a chorar incontidamente...
           Um grande silêncio me abateu, aquilo pareceu um século de estática e letargia... Quando em fim, passara aquele clarão ofuscante. A ligação caíra e eu sequer consegui ouvir a voz de minha amada a me atender.
O celular não mais estava em minhas mãos, e agora de fato eu tinha uma clara visão do que havia acontecido.
Estático eu olhava incrédulo, para meu corpo inerte e sem vida ali jazendo embebido em sangue, totalmente dilacerado no meio dos destroços de gente morta e ferro retorcido pela força do impacto do acidente que me ceifou a vida, num quente dia de agosto. Um frio intenso possuiu-me, como uma descarga elétrica que subindo do calcanhar percorria toda a minha região dorsal até desaparecer na altura da nuca. Num desalentado constatar, lacrimejando incontidamente, eu percebi... Eu estava morto.