04-Verborragia

PRECOCE
A menina que mulher
Tornou-se
Ainda menina
Explodiu seu ser mulher
Na flôr do seu ser menina.

A mulher de ser menina
Que menina ainda é
Segue sendo flor menina
Linda menina mulher.

Teu porto seio seguro
Aromas de vaidade
Encanto doce loucura
Magias da puberdade.

Teu corpo manancial
Teu jeito místico encantar
Teu sonho jeito arredil
Mulher teu ser se tornar.

És brasa queimando a vida
Es tú mulher em mulher
Tua menina passou
Encanto ainda és.

Mulher de essência menina
Em tudo um ser mulher
Mulher tem que ser menina
Menina menina ser.

Ainda que o ser mulher
Aflore em meio a menina
Há tempo a todo tempo
Há menina que fascina

Sendo mulher menina
Já fostes menina mulher
Precoce esta menina
Tornou-se hoje o que é.


MENINA

Sou ainda uma menina...
Mas que menina sou?
Sou criança sonhadora
Sou menina serelepe
Sou tesouro da mamãe...
Vaidade do papai...
Esperança da família em lançar raízes
Que se firmarão para sempre.

Sou ainda uma menina...
Mas o que quero para mim? Um mundo de paz
Um amor que faça-me
Um alivio pro mundo
Uma canção...
Um dia de chuva
Um sol amarelo de raios dóceis e amenos

Sou ainda uma menina...
Mas que menina sou?
Sou a menina que me deixam ser...
Sou ainda uma menina...
Mas o que quero para mim?
Quero viver no meu mundo
Sendo o que sou, construindo o que serei
Vivendo no amor, buscando o meu sonho azul...
A felicidade!
...Sou ainda uma menina.


O PATRIOTA

Não, eu não posso parar de sonhar
Pois se paro estou morto
Parar de sonhar é abdicar da vida
Os sonhos são o alimento da alma
É o que a impulsiona a esperar e buscar.

Os sonhos é o que move o homem
E sem eles a alma morre indubitavelmente
Por isso sonho...

Sonho com a vida
Sonho com a justiça
Sonho com o dia em que o pranto cessará
E será então enxugada toda a lágrima
Sonho com o dia que a tirania desfalecerá
E dará enfim descanso ao lombo do trabalhador.

Me dói,
me dói conviver com o pranto
E os murmúrios silenciosos de minha tribo
Sofrendo os rigores de uma minoria
Me dói saber que a mudança não vem
Por que nossos lábios não reclamam os seus direitos.

Me dói saber que a falta de unidade
E organização, nos fazem vulneráveis e
Inaptos para alcançar a igualdade de direito e deveres...

Sim! Por que aqui em casa há duas castas
Os que tem direitos e os que tem deveres
Há ainda os que vagueiam na intermediária
E são discriminados por ambas as castas.

Pranteio e soluço, ao me ver vítima de
Nossa covardia intrépida...
Choro as amarguras de uma
Tribo dividida, morrendo numa
Luta egoísta e fratricida.



ASSIM SOU EU...

Desejei ser doce como mel
Fui doce, no simples jeito de buscar a doçura
Nunca fui doce como mel
Mas, o quis ser...

Com a parcial doçura
Que minh’alma alcançou
Adocei vidas
Colori sonhos
E no contato
Com outros
Vi olhos brilharem
Ganhando um tom de intimidade
Gastei todo o meu doce
E perdi-me da fonte.

Ausente...
Carente e displicente
Desejei ser doce como o mel...

Tornei-me amargo
Amargo como fel
Insensível,
Matei as vidas que um dia adocei
Desbotei os sonhos que colori
E os olhos brilhantes que se seduziam por mim
Mostrando uma intimidade nunca antes percebida,
Perderam o brilho íntimo,
Ganhando um embassamento estranho e indiferente.

Tornei-me amargo em busca da doçura
Injusto em busca da justiça
Sozinho buscando companhia
Ignorante buscando o saber...

E hoje quem sou?
Pra onde vou?
Não sei!!!
Apenas sou um ser amargo...



NOSSA HISTÓRIA

Um toque leve e Souto
Um riso tímido
Um fugido olhar
Um encontro fortuito
Um sonho meigo
Uma canção suave, suavemente a me embalar...

O brilho da paixão
Sem hora nem explicação
O despertar da emoção
A sensação de vida a me invadir
Roubando meu juízo e eu rindo dos
Perigos de me entregar, me apaixonar.

Sem exitar
Sem pensar e sem temer
Toquei ousadamente a sua mão amiga,
Suavemente ali, a mim, sendo estendida
Fui lentamente penetrando o teu olhar
Fui invadindo seu mundo...
Me apaixonando
Me entregando
Fazendo amor
Te dando amor
Tu me amando...
Corpos suando
Sonhos se mesclando
Paixão nascendo
Amor surgindo arrebatando... Nós dois enfim
Vivíamos a nudez e a transparência
Desse amor, que ninguém sabe pra onde vai.

Não dá pra imaginar
O que nos está a esperar
Pode ser o céu...
O paraíso...
Talvez as chamas do inferno casual
Que a vida faz surgir na vida de casal,
Talvez o crime bárbaro da traição
Ou o fardo pesado da solidão,
Mas tanto faz
Somos iguais
Amantes de cumplicidade
Ávidos pelo amar
Ativos no sonhar
Inconseqüentes em não se preocupar
Mas tanto faz, quero você e nada mais.


ACHADOS E PERDIDOS

Há pessoas que se acham quando se perdem
Há pessoas que se perdem quando se acham

Se acham sozinhas mesmo acompanhadas
Se acham solteiras mesmo casadas
Se acham em casa no meio do mundo
Se acham por cima mesmo no fundo do poço
Se acham tristes mesmo sorrindo
Se acham felizes mesmo em lágrimas
Se acham e se sentem senhores de si.

Há pessoas que se perdem quando se acham
Há pessoas que se acham quando se perdem

Se perdem na vida
Se perdem na lida
Se perdem dos outros
Se perdem dos livros
Se perdem do riso
Se perdem no mundo
Se perdem de casa
Se casam se perdem
Se acham, se perdem
Se perdem e se acham.

Há pessoas que se perdem quando se acham
Há pessoas que se acham. Quando perdem
O medo de perder...


NOSSA!

Amor cá estou queimando de desejo!
Donde andará você que não me envolve em seus beijos?
Meu corpo arde querendo-te, meus lábios ressequidos clamam pelo suco dos teus...
E tu donde andas?
Inquieto-me e você não está aqui, será que volverás um dia a fartar-me em seu amor?
Um último desejo me invade o de não te perder... Possuir-te ainda que nas lembranças e assim amar-te, amar te, amar-te...
Mesmo que em meus devaneios.



ÁGUAS DO MEU SERTÃO

As doces águas do meu sertão
Tocadas qual boi na invernada
Lentamente se fazendo represada
Tornando em mar o ribeirão.

As águas doces do meu sertão
Revolvidas manipuladas pelo homem
Mata vida gera vida mata a fome
Produz luz pondo fim à escuridão.

Quantas vidas duramente massacradas
Fauna e flora simplesmente desgraçadas
Por um justo vil conforto social?

Desbravamos céus, terra e mar
Manipulamos águas, vales, serras e ar
Sustentando nosso sonho capital!



HIDROCÍDIO

Posamos de deuses sobre o chão
Demônios ou anjos decaídos...
Somos cotidianamente impelidos
A recriar a tão perfeita criação

À unha, `a máquina ou à enxada
Removemos pedras, serras, vales e águas
Qual amazona o alazão cavalga
Montamos nós a vida em disparada.

Recriando o que Deus criou perfeito
Saciamos o desejo em nosso peito
Que renasce a cada dia mais voraz.

Se da água vem a vida em pó virar
A matamos água e vida pra reinar
E reavivamos água e vida em tom audaz.


HIDROCÍDIO II

Ah sonho de luz pra vender!
Gerado por mãos hidrelétricas
Energia de águas repletas
De força, a vida a mover.

Felicidade a conta gotas servida
A conta watts gota a gota contada
Tostão a tostão cada vida mensurada
Em mercadoria dia-a-dia transvestida.

Na escuridão de nossa vã sabedoria
A ignorância é a luz que irradia
De nossos sonhos-pesadelos tão comuns.

Se mal contidos nossos sonhos mal deságuam...
Num incontido ato nosso, mãos degradam
A natureza mãe de todos e cada um.



INCONFORMADO

Oh! Deuses e anjos, forças universais!
Eu quero a mudança o fim do domínio
Das hostilidades o fim do extermínio
Quero intensamente o reino da paz!

Oh! deuses e homens, forças naturais!
Não consigo ver e aceitar o sentido
Da adoção e naturalização do fratricídio
Em todas as nações e de formas legais!

Não aceitarei ser morto ou matar
Nesse campo de batalhas a lavar
Com sangue nossa bela mãe terra.

Gritarei a esse vil mundo surdo
Mesmo que em grito mudo, o absurdo...
Que permeia a tudo e que nos encerra.




FERIDAS

Hoje o amor me feriu
Ele sempre me acariciára
Com ternura e afabilidade
Mas a serpente peçonhenta
Do ciúme em bote certeiro a envenenou...

A peçonha turvou-lhe os sentidos
Embaralhou-lhe as vistas
Entorpeceu-lhes os tímpanos
Nublou-lhe o coração
E encarcerou agrilhoada, as faculdades da razão...

O amor cingiu-se de furor
E empunhando a espada da palavra
Cravou-lhe impiedosamente
Em meu peito...

A ferida jaz aberta
E a palavra cravada em meu peito
Tortura-me cabeça e coração...

Estou mortalmente ferido
E não sei o que fazer...
Não consigo gritar em busca de socorro...
Não consigo arrancar do peito a espada cravada...

Assim impotente recolho-me
Peço que ao passar este silêncio...
Arranque-me a espada cravada em meu peito
Com a sua sabedoria.

A ferida em mim continua aberta!
Quanto ao amor...
Ah! o amor é forte e imortal é muito poderoso...
Um dia ele acorda...
E os aromas da nova estação terá lhe introjetado o antídoto
Que neutraliza os efeitos do veneno da serpente do ciúme...

E assim não tardará a fazer refulgir em seu mundo o brilho dos seus encantos...
Afinal o amor que fere é o mesmo que cura, ele tanto mata quanto vivifica...


ZAMÔ

Jovi ino, seguino o sol dos sonhos do som
Jovi ino todo dia ao seu trabalho
A sonhar que a vida é mesmo nada mais que um dia bom.

Jovi ino, nas mãos. as flores da juventude
Os sonhos e seu violão...

Jovi ino ano a ano...
Caminhando sempre escravo da paixão!

Na vigília das quiméras
Que nos formam e faz mover...
Jovi vai, segue em paz em busca.
Do seu bem querer.

Amor de A a Z...
Zamor...
Amores que se seguem, se sucedem, vem e vão
Amor de A a Z
Zamor...
Ele é mesmo todos nós…
É mais um anjo sonhador... Embalado pela emoção!



MINHAS FILHAS

Teu olhar é como o sol
Teu sorriso como estrelas
Felicidade me invade
Para tanto basta eu vê-las.

O brilho dos teus olhares
É sonho onde me encanto
A candura soa, teus gestos
Tem a beleza de um canto.

Ser teu pai me envaidece
Alegria é ter vocês
Graças dou todos os dias
Por poder ver vocês crescerem.


SONETO EM J

Já na inalterável condição
Juro a ti não me entregar
Jogo com toda a minha atenção
Jurando por ti não me apaixonar.

Jamais Iracema brejeira
Jeito darei no que sinto
Jarra de amor altaneira
Jovem afável, não minto!

Juntos não poderemos
Jamais esse amor impossível
Jorrar tal qual rio permitir.

Jogaremos então esse vil
Jocosamente no afã do desejo
Jazendo tão febril no porvir.


DEUS

Um belo dia a tribo se reuniu
Pra entender aquilo que aconteceu
De onde vim?
Pra onde vou?
O que és tu e afinal o que sou eu?

Questionamentos que a tribo se fazia
No coletivo e em cada indivíduo seu...

Sem ter noção sem ter razão sem direção...
Nessa suruba a nossa tribo criou Deus.

Uma vez concebido...
Foi gestado e veio ao mundo.
Ganhando almas, corpos, mentes e corações...
A cada dia mais potente e expandente
Subtraiu nossas razões e proporções

Onipotente, onipresente, onisciente
Nosso menino de repente se tornou...
A confusão na tribo é sempre ascendente
Já não se sabe quem é cria ou criador.

O certo é que de certo nada se tem
E o que se tem de certo, certo nada é...
É cada cego fitando a escuridão
Com sua tese seu olhar e sua fé...


SONETO EM A

Ah! Paixão volátil que se dissimúla
Ao sabor dos ecos do vento da emoção
Agindo nas veias o sangue coagúla
A furtar-me o tênue fio da razão.

Atônito ante seus olhos reluzentes
Almejo ver seus sonhos seus segredos
Acordo encarcerado em correntes
Atado e impedido então me vejo.

Ao menos no olhar minha te tenho
Assim grilhões não me podem conter
Amando-te no silêncio, me contenho

Aline, que a um olhar aprisiona
Aos mortais que em tua órbita passeiam e
A cada instante por ti se apaixonam.




VOLTA NOTURNA

Ah!
Quantas vezes meu eu repete
Para si esta pergunta?
Quanto de mim se perde por estas ruas?
Quantas dessas ruas se perdem em meu eu itinerante?
E assim no turvo da noite meus pés calcam estas ruas...
Meu eu desabrocha em sonhos e me ponho a imaginar inusitadas circunstancias
Onde me ponho à prova...

Minha constituinte cai sobre a pata
Voraz dos quês!
Meus medos então afloram-se
E meu cérebro castiga-me com
Os tormentos que me afligem.
Contudo, estou consciente!
Caminho suavemente, deslizando como
Sombra e lentamente vou vencendo
A penumbra em meio aos raios de néon.

O peito acelerado
Revela minha emoção... Sou estranho
Em casa, amigo em casa estranha...

Me imagino distante daqui...
Me sinto pisando em falso se não piso nessas ruas...
Sinto o caos da cidade, no silêncio do percurso
Vozes clamam distantes em um eco vociferante.

Sinto Deus e o diabo
Se banqueteado em meu ser...
Cabeça e coração servidos numa mesma bandeja aos opostos
Mais intrigantes que minh’alma em si possui...

Canto, altero o passo,
Sonho, estático divago em mim...Alcanço a soleira da porta!
E... Enigmaticamente preso em meu próprio ser...
Adormeço misteriosamente.


PANGOZO
Deixe que eu te olhe
Te aprecie que eu te queira

Deixe que eu te ame
Que eu te veja e te deseje

Deixe que eu te coma
Te deguste e que eu te goze

Deixe que eu te tenha
Que me tenhas que me aproves

Deixe que à distância
Tudo seja sem o ser

Deixe o não consumado
A consumar-se por ser

Eu em ti e tu em mim...
Eternamente
A se verter.


PANGOZO II

Todo gozo já gozado
Bem gozado ou mal gozado
É uma presa do passado...
É pouco mais do que lembrança.

Todo gozo ainda por gozar...
É lúdico e esperançoso
Por ser sublime esperança
Já cai gozado no eu.

E mesmo sem teu saber
Teu sentir, teu consentir
Teu querer, teu perceber
Sem jamais consumado ser
É gozo particular
Eternamente a jorrar
É gozo gozado meu.

E em nada é meu,somente meu...
Senão aquilo que em mim se encerra
O que a outro participo
Em nada é meu senão nosso
É onde a gente erra.

No silencio sideral
Do sepulcral eu universo
Tudo é gozo
Tudo é verso e reverso
Sem jamais se consumir.

No bojo do já gozado
Tudo é eco do passado
A que só cabe lembrar
Está pronto e acabado.

No porvir... Tergiversar, fantasiar, degustar
Gozar, gozar, gozar... Sem jamais se acorrentar
Num formato acontecido
Já gozado e consumido por isso irremediável...

A todos amar, comer
A todos sentir e ter
Sem crime sem culpa...
Sem mais... Pangozo!!!