sábado, 27 de fevereiro de 2016

Caído





No chão da vida me encontro,
Remoendo todos os meus feitos,
Soterrado em meio aos escombros,
Desse mundo de seres imperfeitos;

Dos amores que tive, que vivi,
Das sementes que na vida plantei,
Lindos frutos em filhas colhi,
Muitos sonhos com lágrimas teguei;

E o tempo menino apressado,
Todo afoito a seguir o caminho,
Devorou quinze anos calcados,
A pés descalço com afeto e carinho;

Fiz história, estorias contei,
Eu rezei, eu cantei a pregar,
Em aprender muito me empenhei,
Para poder melhor servir e amar;

Me fiz servo,  amigo e irmão,
Me fiz ombro, coração e ouvidos
Me doei, ofertei minhas mãos,
Acolhendo o que tinha caído;

Me fiz punho, me fiz braço e voz,
Fui à luta e simplesmente lutei,
Pouco a pouco fui deixado a sós,
Justamente por quem eu lutei;

Ressequido, sufocado e perdido,
Vi raiar o louco sol da paixão,
Que voraz devorou -me o juizo
Destruindo o meu fio da razão;

E nos olhos da mais bela flor,
Pelo amor fui então encontrado,
Sem tocá-la ou sentir-lhe o sabor,
Com um olhar fiquei apaixonado;

Foi amor à primeira vista,
Colossal,foi um conto de fadas,
Me perdi feito peixe na isca,
Me achei nos olhos da amada;

Mas para tê-la, para lhe possuir,
Tive que me trair, me vender,
Destruir o sonho que construi,
Nos escombros do sonho perecer;

Foi assim, que me descobri,
E os amigos que eu pensava ter,
Finalmente então conheci,
Bem a tempo de ainda aprender;

Que amigos bem pouvos eu tinha,
E os que tinha muito machuquei,
Pra viver e não morrer hipócrita,
Esses amigos sem querer eu matei;

Todos os demais que eu tanto presava,
Sob a alcunha de amigo ou irmão,
Com minha queda virou-me as costas,
Abandonando-me sem ter compaixão;

Hoje sei que aqui nada tenho,
E o que tenho nunca me deixará,
Pois é livre e eu nunca os retenho,
Deixo-os livres para sorrir e amar;

Já não me engano com doces sorrisos,
Com abraços, acenos e palavras,
Aprendi que tudo que realmente preciso,
O amor Deus já me deu e me aguarda;

A todos que cruzou meu caminho,
Deixo a paz e a minha gratidão,
Em silêncio sigo, às vezes sozinho,
Mas com amor dentro em meu coração.

Soneto em Acróstico





Fazer sua história, seguir seu caminho,
Empenhando-se em viver, vivo estando,
Lutar com amor, fazer tudo com carinho,
Iluminando-se, caindo ou se levantando.

Zombando dos males e perigos da jornada,
Armando-se de sorriso, amor e compaixão,
Na certeza de que só o amor e mais nada,
Ilumina e vence, nossa sombra e escuridão.

Vivendo é aprendiz, ensinando o que aprendeu,
Enquanto inquieto e ávido procura transcender,
Rumo àquele, que de puro amor, um dia o teceu.

Segue seus sonhos e os desejos do coração seu,
Ávido do céu, segue se doando a se enternecer,
Renascendo das trevas, para a luz  do amor Deus.

Inspirado pelo amor segue vencendo a compreender, que no caminho é preciso, que se...
Ore, vigie e ame... Siga, sendo e aceitando o que se é, buscando ser, o ser que se sonha ser. Amando, amando, amando... E assim, pelo amor ir se transformando.




Quando Caímos


Aquiete-se e tenha fé, por acaso, acredite nada é,
Cada um é aquilo que é, vivendo conforme  acredita,
Cada um sofre as dores que na vida tem que viver,
Suportando pela vida, o conjunto de suas desditas.

Só quem sofre os tormentos e os espinhos das dores,
Só quem suporta o peso que tem a sua pesada cruz,
Sabe onde o sapato aperta, onde mora seus dissabores,
Sente as trevas que insistentemente atenta contra sua luz.

Por isso mesmo limite-se a amar e nunca se apresse em julgar,
Se coloque no lugar do outro e tente suas dores entender,
E verás que as vezes a loucura e a morte, nos parecem ser solução.

E já cegos de medo e de dor, desistimos sem forças pra esperar,
E então  não  suportando o fardo, sufocados de tanto sofrer,
Desistimos de tudo e falidos caímos, suplicante pela compaixão.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Coleção Sacramentos

Coleção Sacramentos

1-Batismo

Incrédulo e sem razão,
Eu negava o amor.
Negava sua existência,
Negava sua benemerência,
Negava sua eficiência.
Um pérfido de coração,
Eu só cria mesmo, era na dor.
Essa dor da existência,
Devoradora de consciências,
Mãe e irmã do desepero.
Que leva-nos ao pesadelo,
De nos vender a qualquer preço.
Mas num dia casual,
Veio você afinal,
O meu mundo transformar.
E a dor que eu cultivava,
Mutilando meu coração,
Devorando-me a razão,
E empobrecendo- me a emoção,
Por teu olhar foi vencida,
Dando vida a minha vida.
Me vencendo afinal.
E assim,  tu me sorristes,
Com um olhar me sedusistes,
E por fim, me condusistes,
Ao teu corpo batismal.
E na pira do teu fogo,
Queimastes o velho eu,
Fazendo surgir o novo,
Batizado pelo amor,
Nas águas ferteis do teu gozo.
E sendo o novo ser que sou,
Eu só vivo pra você,
Sou servo do teu amor.


2- Eucaristia

No sagrado templo do amor,
Coloco-me desnudo e contrito,
Reverente e cheio de grande ardor,
Onde banqueteio-me, a cear contigo.

Nos seus olhos vejo o amor fulgurante,
Em seu toque, toda a perfeita sublimidade,
Em seus lábios, a confissão dos amantes,
Em meu eu a fluir a plena felicidade.

Devotado, me deito em seu leito altar,
E me ofereço, em pleno ato de oblação,
Recebendo-te oferenda, na mesma medida.

Comungando nossos corpos, no ato de amar,
Eucaristia dos amantes, numa mesma oração,
Nos tornamos um, a comungar a mesma vida.



3 -Confirmação

No crivo das dores de cada dia,
O tormento das horas nos ronda,
A rotina sequiosa nos cerca,
Os problemas nos abalam e desafiam.

A distância nos quer separar,
Nos mantendo das horas, reféns,
Tantos olhos nos olham, nos buscam,
Tantas vozes, nos gritam, doutrinam.

Mas no oculto templo de minh'alma,
Onde somente eu e o amor adentramos,
No secreto quarto de meu ser,
Onde eu e você, pelo amor, sendo um habitamos.

Nesse quarto, de portas fechadas,
Onde o pai amor, nos ouve e acompanha,
Eu num rito sacrossanto de amor,
Professo silenciosamente em meu coração,
Sobre os descompassos do amar,
Dando à vida minha confirmação,

Como a crisma confirma o batismo,
Confirmando uma escolha e vocação,
Eu confirmo com o jorrar de minh'alma,
Num oceano de amor em convulsão.

Que te amo, te quero e te preciso,
Sois meu amor, meu afeto e paixão,
Sois meu sol e meu eu, em outro eu,
És a vida, que conserva a vida,
Dando luz e vida, ao meu coração.


4 - Matrimônio

Me casei,
Me entreguei e amei.
Procriei,
Recriei a cantar...

E a vida gerou novas vidas,
No selvagem exercicio do amar.
Nos rituais sacramentais da instituição,
Me enredei e me casei,
Fiz papel,
Coloquei em outro dedo aliança.

Mas trai o que um dia jurei,
O matrimônio que então contrai,
Se contraiu no compasso dos dias,
Em pecado de não amar a quem jurei,
Vi-me enredado nas trevas da rebeldia.

Mas o amor que a tudo ordena,
Não se encarcera em vis tradições,
Nem condena o que ama imensamente,
E se entrega, a viver de emoções.

Entre o falso matrimônio jurado,
Falseado pelo arrefecido sentimento,
Optei por seguir meus desejos,
Te encontrando em sublime momento.

E se escândalos muitos causei,
Ao encontrar-te contigo me casei,
Com um olhar descobri-me em ti,
Com um beijo,
Fizemos nosso matrimônio.


5 -Penitência

Confesso que amei...
Confesso que sonhei...
Confesso que acreditei...
Confesso que tentei...
Confesso que servi...
Confesso que li e reli...
Confesso que temi...
Confesso que fugi...
Confesso que senti...
Confesso que não fiz por mal,
Confesso, sou humano afinal,
Confesso que meu instinto animal,
Solapou meu desejo racional,
E fez-me presa desse amor transcendental.

Confesso, sem esse amor nada sou...
Confesso, meus erros e pecados
Confesso, minhas trevas meus medos mais guardados
Confesso...
E ao confessar peço perdão...

Perdão por decepcionar a tantos,
Perdão por amar assim,
Perdão por acreditar no amor e na sua liberdade,
Perdão por não pedir perdão.

Perdão por ter pecado,
Perdão por perder de vista a noção de pecado,
Perdão por ter acreditado,
Que é certo inventar pecados,
E que manter o ser aprisionado seja o único e real pecado.

Perdão por gostar tanto do pecado, com seu amargo adocicado!

Perdão... perdão...
Por ser um ser que sente, sonha, deseja e quer...
Um ser que não se retém por medo ou covardia,
Um ser que teme a própria consciência e foge da hipocrisia.

Perdão por ser um homem injusto e imperfeito,
Em busca de justiça e perfeição,
Perdão por ouvir os apelos do desejo,
E me doar sem medida ou reservas.

Perdão por decepcionar a tantos, para saciar às minhas mais íntimas e essenciais necessidades...

Perdão... perdão por minha sinceridade,
Perdão por minha honestidade para com o outro e principalmente para comigo mesmo.

Perdão pela poesia pobre e vazia,
Perdão por esses meus versos,
Perdão por minha confissão,
Perdão por acreditar e viver o amor...
E por amor confesso...
E por amor perdão peço...
E por amor confesso,
Que por amor, outra vez e mais uma vez...
Se preciso for... pecarei.



6 - Ordem

O amor me ordenou...
Ordenou que eu ame,
Ordenou que eu sinta,
Ordenou que sonhe,
Ordenou que eu deseje,
Ordenou que eu pense,
Ordenou que eu veja,
O amor me ordenou...

Ordenou-me sacerdote do amor.
Ordenou-me para sempre e eternamente.
Sacerdote segundo a ordem de philos, eros e ágape.

O amor me ordenou...
E assim, obedeço,
Assim, cumpro meu sacerdócio,
Às vezes amargo, às vezes doce,
Entre erros e acertos,
Tombos e tropeços,
Lágrimas e sorrisos,
No exercício do amar cumprindo a ordem do amor.

Vou estando como estou, a caminho do que serei...
Nos braços do amor que é,
Vivendo meu inferno e meu paraíso.

No calor do seu toque,
No fulgor dos seus olhos,
No néctar dos seus lábios,
Nas águas do seu amor,
Na doçura inebriante do seu sorriso.


7- Unção

Morro a cada instante,
Morro eterno amante,
Na constante busca,
No prazeroso e extenuante exercício do amar.
Morro a cada gozo,
Morro a cada orgasmo,
Morro enfermo que sou,
Doente nesse corpo de carne que o tempo roi e a dor corroi,
Que a mágoa e o egoismo adoece e destroi.
E por isso morro...

Morro, mas morro amando...
Ainda que chorando,
Ainda que sangrando,
Ainda que errado, morro nos braços do amor, feliz a amar...
E o amor me unge com sua unção,
Doce unção dos enfermos, enfermos de todas as enfermidades.

Pois somente o óleo santo do amor traz vida...
E o amor jorra o seu óleo, pelas lágrimas dos seus olhos,
Pelo brilho do seu sorriso,
Pelas águas do seu corpo,
Esse embevecente e magnífico,
Portal que conduz ao céu,
O templo sagrado do amor,
Que se erige e se instala,
Onde haja dois corações,
Dispostos ao amor, ao amar.