sábado, 30 de abril de 2016

ONDAS DE TRANSFORMAÇÃO



A vida é um grande mar,
Quiçá, imenso oceano,
Onde singra-se sem trégua,
No barco corpo humano.

De ondas sempre diversas,
Hora a hora se alternando,
Entre suaves e revoltas,
O corpo/barco chacoalhando.

Somos nós nesse sentido,
Barcos de carne a seguir,
O caminho que escolhemos,
Com compromissos a cumprir.

Enquanto barco singramos,
Sempre conforme conseguimos,
Mas é no singrar a vida,
Que vamos evoluindo.

Pode se singrar a esmo,
Como barco à deriva,
Sem rumo e sem consciência,
Perdido na própria vida.

Estacionado em si mesmo,
Teimando em remar sozinho,
Contra o balanço da vida,
Que sempre indica o caminho.
A cada instante uma estrela,
Um astro ou outro sinal,
Se mostra ao navegante,
Chamando-o a vencer o mal.

O mal de singrar a esmo,
Por oceano revolto,
Sutilmente lhe indicando,
O norte que leva ao porto.

Mas cego, surdo e insensível,
O navegante não vê,
Insiste em singrar a esmo,
Sozinho até perecer.

Quando então morre, renasce
Em outro corpo/barco a singrar
O oceano da vida,
De onde não pode escapar.

Para navegar seguro,
É preciso observar,
Dedicar-se ao estudo,
Do que a vida nos dá.

Sabendo que porto seguro,
Existe a nos esperar,
Mandando-nos todo o auxilio,
De que vamos precisar.


Só a ignorância e o descuido,
Podem nos impedir de acessar,
Toda ajuda que o porto,
Sempre manda sem cessar.

Problemas, dores, doenças,
São oportunidades ao ser,
Para além do que se pensa,
Do que se julga saber.

Convidam à reflexão,
A mudar de opinião,
Deixar a atual posição,
E avançar com direção.

Cada circunstância assim,
Não é mera punição,
São oportunidades então,
De mudar a situação.

Ondas de transformação,
A que se é convidado,
A se religar ao todo,
Se religando ao sagrado.

Tomando conhecimento,
De si, do outro e do todo,
E a cada onda que chega,
O barco ganha um renovo.


Assim, no oceano vida,
Deste ou do outro lado,
Na matéria ou no espírito,
Sempre se tem o chamado.

É a voz do eterno Pai,
Que a tudo fez com amor,
Chamando e atraindo,
A criatura ao criador.

Estando o criador,
Oculto na criatura,
Por suas obras se mostra,
Na terra ou nas alturas.

E a vida mar oceano,
É palco dos desenganos,
Onde se segue singrando,
Mesmo sorrindo ou sangrando.

Evoluindo ou estacionado,
À deriva ou avançando,
São dádivas que Deus,
Por amor está sempre dando.

O itinerário da viagem,
Tem certos condicionantes,
Além de cada escolha,
Que é feita a cada instante.


Além das dívidas e defeitos,
Limites de cada viajante,
O interesse coletivo,
Também é condicionante.

Pois mesmo sendo indivíduo,
Existe elo comum,
Unindo todos a todos,
E todos a cada um.

Assim é que se evolui,
Nessa viagem que é viver,
Indivíduo e coletivo,
Todos chamados a crescer.

Restabelecendo ao singrar,
A harmonia perdida,
Consigo, com outro e com Deus,
Durante a queda sabida.

E ao se rearmonizar,
Retornando ao criador,
Vai se fazendo conhecido,
Tornando se conhecedor.

Imaterializando assim,
O que a consciência criou,
Na queda ao contrair-se,
Deixando o criador.


E ao passo que se singra,
Esse mar oceano vida,
Vai se voltando pra casa,
Para a morada perdida.

Aos braços do pai amor,
Que um dia nos viu partir,
Dilapidando seu patrimônio,
Teimando assim em cair.

Descendo às trevas profundas,
No caos da materialidade,
Olhando o céu à distância,
Sempre a sofrer de saudade.

Da casa paterna perdida,
Num ato de vaidade,
Onde deixando o sistema,
Caímos em anátema.

Distante entre as prostitutas,
A nos nutrirmos de lavagem,
Adulteramos a obra,
Da suprema caridade.

Involução foi a queda
A descida de verdade
Evolução é voltar
Aos braços da majestade.


Ao colo do Deus poesia,
Esse pai de eterna bondade,
Que dia a dia nos espera,
Na mais sublime saudade.

De tanto que sente e quer nos,
Ao nosso encontro vem,
Para acolher-nos na volta,
Para todo o sempre amém.

Criamos o antissistema,
Quando a queda se deu,
Morada do ser material,
Muito distante de Deus.

Agora para voltar,
Subir de volta para o céu,
Preciso é vencer as trevas,
Que a todos nós corrompeu.

Mas Deus é o porto seguro,
Que dia e noite vigília,
Ansioso pela volta,
De seus filhos e suas filhas.

Ao passo que singramos a vida,
E vamos evoluindo,
Vamos então nos conhecendo,
Conforme nos soerguemos.


Nesse caminho de volta,
Somos nós todos iguais,
Os que caíram primeiro,
Igualmente os demais.

Tantos que caíram do céu,
Como os nascidos no cativeiro,
Somos nós filhos rebeldes,
Distantes do amor primeiro.

Voltando a duras penas,
Do antissistema ao sistema,
Nosso céu lugar comum,
Para enfim se cumprir,
Que filhos e pai são um.

Quem vê o filho vê o pai,
Quem vê o pai vê o filho,
No céu com Deus seremos um,
No mesmo amor de intenso brilho.

Hoje exilados na vida,
Singrando como queremos,
Contamos com irmãos mais evoluídos,
Que instruí-nos nós tão pequenos.

São os vários campos da volta,
Que se avança ao singrar,
Nos mais distintos corpos,
Para vários tipos de mar.

Que é a vida em várias dimensões,
Da matéria ao espírito,
Os filhos lindos de um Deus,
Pai lindo de amor infinito.





Kiko di Faria

sábado, 5 de março de 2016

O PARTO

O PARTO




Ai, ai, ai! Como dói minha iscadeira! Essa minha cacunda cansada, de doer inda me mata!
Maria Tomásia se levanta do rancho e manquejando e balbuciando lamentos se dirige ao rêgo d'água, pamode lavar os últimos pano que o menino tá chegando. Pelas dores que vem sentido e o tamanho do bucho, ela sabe pela experiência de outros sete partos, que sua hora não demora.
Quando a noite cai e o céu de estrelas se decora, as dores chegam ao seu liminar e Maria Tomásia sabe que é hora da grande hora. Assim, entre uma contração e outra manda seu primogênito Pelágio ir à casa da vizinha, chamar dona Davina, parteira e comadre sua.
Deveras,  acertado tudo já  estava, desde a semana passada, quando as dores primeiras de parir sutilmente já se anunciavam. Foi na reza de dona Davina, ela que era devota de Nossa Senhora do Livramento, enquanto amassava o "rosado e a brevidade", biscoitos caseiros à  base de goma de mandioca, que dona Davina não gostava de deixar faltar na sua devoção. Enquanto  preparavam as guloseimas, todo ano ela contava a mesma historia, dizia ela: - essa reza é divução dos antigos, tá na família pá mais de duzentos anos. Cumeçô cum a bisavó de minha vó, uma véia muito temente que ficô cunhicida cuma "dona Precata" purque contam que ela era precateira de mão cheia, fazia precata, que vinham de longe pamode dela incumendar. Era precata que durava pá vida intera, num era essas porcaria de sandália que nois vê hojeindia não. Dona Floriscena cuma era seu nome de batismo, acumeçô cum a divução, foi pamode sarvá a minina dela dum parto de morte. Dizem que os trabaio de parto da minina já passava de três dias e a coitada num paria. Quando a mãe cheia de medo já privinino do perigo que sintia, recorreu à fé e foi Nossa Senhora do Livramento que salvou a mãe do minino. Desde intão, a reza tá na família.
Foi nessa ocasião que Maria Tomásia  vendo que sua hora aproximava ao fim da reza deixou tudo acertado com sua comadre Davina, que quando as dores apertassem, mandava ela, o mínimo avisar.
Foi assim, que Maria Tomásia, tinha tudo preparado, conforme providenciara ao longo dos dias. Enquanto a panela de água fervia, ela dava janta pros meninos. No quarto simples do rancho, todos os panos do bebê estavam limpos e bem preparados. E para  o parto, tudo estava pronto, tinha: fumo moído, mastruz, folha de pimenta, picão, carrapicho, azeite de mamona, fio de algodão, cachaça, pimenta, ovo e farinha, bem como o demais necessário. Faltavam mesmo só  a hora e a parteira. A hora se aprochegava e a parteira num morava longe, era coisa de quarto de légua,  a distância até  o rancho de dona Davina, dentro em pouco ela chegava com suas coisas, rezas e experiências acompanhada do minino Pelágio, pra trazer por suas mãos, mais um filho de Deus pro mundo. Seria só mais um parto, nos quase duzentos que já fizera ao longo da vida. Dona Davina era parteira tão recomendada que vinha fazendeiro forte de longe, pamode pedir socorro aos seus serviços de parteira. Ela ia com amor e devoção,  nunca cobrava pelo serviço, achava que era missão divina a ela confiada ser "aparadora de menino" e onde preciso fosse, lá ia ela pronta pra trazer mais um homem pras lutas do mundo.
Tinha algo bem curioso que ela sempre dizia quando a criança  nascia. Fosse homem ela dizia : - Eita sô quanta alegria é "burro pra carga" machinho do saco roxo. Sendo mulher dizia assim: - Eita sô quanta alegria é "carga pra burro" feminha pra perfumá o mundo. Sempre reverente e sábia, na sua simplicidade. Nunca cobrava nada, mas sempre era obrigada a aceitar alguns presentes, de gratidão de quem foi socorrido. Assim, ganhava: farinha, frango, rapadura, balaio, quibano, porco, bezerro, novilho roupa, entre outras coisas. Além de uma porção de afilhados e "filhos de nascimento" que para o resto da vida lhe teriam respeito e gratidão, sempre-lhe pedindo a bênção, em qualquer ocasião, pois para estes e família, dona Davina não era qualquer uma, era a eterna "mãe de imbigo", ou seja, a parteira que lhe trouxe à vida, amparando em sua primeira queda, do sagrado paraíso do bucho materno, para as cores e cheiros, luzes e dores das estradas do mundo, cortando-lhe o umbigo, tomando-lhe nos braços, nessa hora de medo e horror que traumatiza o nascente, para aquecê-lo e aconchegá-lo nos braços  maternos, devolvendo-o assim, ao conforto da mãe que o acolhe e alimenta dando-lhe de imediato o peito e o colo, símbolos mais sagrados do mundo, que reproduzem as feições do útero, esse paraíso irremediavelmente perdido no ato do parto.
Como sempre fizera com os demais filhos que agora seriam oito, contando o que nasceria em breve, Maria Tomásia ia parir sozinha. O marido tava na lida e não vinha pra acompanhar- lhe nessa hora. Isso não  lhe trazia desconforto,  ela sabia que João era mesmo assim,  não afeito a essas coisas de mulher não. Assim, vinha em casa trazer as coisas e sumia pra roça no Boqueirão, onde tinha terra e plantava. Era bom marido, num deixava faltar nada, mas nessas horas ele preferia ser avisado depois de tudo corrido. Ai sim, ele vinha abençoar o herdeiro, tomando- o ao colo, beijando-lhe a testa, escolhendo o nome, etc. Mas durante as horas de parto ele gostava de estar longe. Sempre foi assim, é o jeito dele. Os demais maridos desse tempo, mesmo não podendo fazer muita coisa estavam sempre em casa nessas horas com a esposa, dando assistência e acompanhando tudo. Alguns até parto faziam. Não é que não soubessem fazer não, é que esse é um momento sagrado da vida das mulheres, a natureza reservou a elas esse momento. Foi capricho de Deus que a mulher desse a vida ao homem e dela ele cuidasse enquanto vivesse.
Existe aí nesse ato de parir uma poesia sublime. A mulher é a poetisa da vida,  assim quis a natureza, que a empoderou com todas as faculdades e forças. Mulher não precisa de nada pra parir,  pari naturalmente, pari poeticamente,  com a poesia selvagem da natureza bravia, que se contorce, geme e grita tecendo a vida, que entre saliva e sangue, suor e gemidos escorre pelos seus lábios ganhando os lábios do mundo. Sempre foi assim! Desde que o mundo é mundo, que acontece assim e não estamos nós aqui por acaso ou capricho médico  não,  estamos aqui porque nossas ancestrais eram poetisas fortíssimas, poderosas parideiras.
 Decerto que progredimos, ganhamos conhecimentos e técnicas e isso é bom, é necessário para dar mais qualidade,  segurança,  assepsia, maior qualidade de saúde e de vida conforme os padrões dos nossos dias. Mas não há razão,  não sem uma real situação de risco, perigo pra mãe e filho, para que haja intervenção de parto artificial. Isso é  superficializar a poesia divina, é empobrecer o parir, estigmatizar e enfraquecer a mulher em sua essência mais sublime.
E tem mais, há quem de longe, já desconfie que transtornos e medos, frieza e distanciamento, dificuldade de relacionamento, entre outros psicosofrimentos e doenças de nosso tempo, tenham suas origens, nesse momento, nesse ato sagrado do parto que fora artificializado.
Os partos artificiais,  com seus mitos e inverdades,  já são unanimidade ou estão quase se tornando. Isso em nome da praticidade,  do lucro, da vaidade e das inverdades apreendidas. Em nome do não  sofrer, da estética antiética e escalafobética, fóbica e cafona que faz desaparecer as mulheres poesia, as mulheres naturalmente potentes, poderosas parideiras de gente, que desde o nascer  vive e sente, não teme viver, não teme sentir, poetisa e intérprete da natural poesia da vida, que torna a mulher mais mulher, pois não lhe furta o poder e faz o rebento mais potente, por nascer naturalmente, saudável, solto e livre pelo mundo.
Remédio é para o doente e não para quem teme adoecer. Para não adoecer é prevenir, precaver-se, se cuidar, pois já nos lembra o ditado, que é bom sempre guardar, que na vida sempre é melhor prevenir do que remediar, assim, parto artificial, deveria ser o que é, remédio para os casos de necessidade, não a unanimidade que já está se tornando...
... Enfim, chega dona Davina e o menino Pelágio e ela vai logo assumindo a casa, termina de dá cumê pra mininada e põe todos pra dormir. Chama a vó Mariazinha,  põe à frente da cozinha e entra pro quarto onde Maria Tomásia já se encontra preparada. Contrações em alternância a cada instante menor, vão  fazendo-a feito cobra de dor se contorcer, serpentiforme a dançar. A mulher  é parideira, confia na companheira e na sua natureza, por isso ela não grita. Geme e se contorce, respira em descompasso, mas não se vê embaraço, nem medo nos olhos dela. A lamparina acesa, ofusca da noite a beleza que hoje é de lua cheia,  a se exibir jubilosa pela fresta da janela.
As horas de dores correm, e dona Davina a socorre com presteza e dedicação, quando as massagens e caldos, os banhos e beberagens mostram sua solução, relaxam e causam calor aumentado assim, a dor e a intensidade da contração. Bacia de água temperada, nem pelando e nem gelada espera pelo bebê. No leito já preparado o corpo semideitado de Tomásia, sua e canta, em preces e ais indiscretos que lhe escapam da garganta.
Segurando a cabeceira e apoiada pela parteira ela pressente o momento. Num contrair extenuante que durou eterno instante de dor e força fazer, escuta o eco estridente de um choro renitente anunciando o bebê  que acabava de nascer. Seu corpo extenuado, de suor e sangue banhado relaxa a desfalecer. Lágrimas  banham-lhe o rosto, mas não são lágrimas de desgosto, são de alívio e emoção. O tremor e o frio ascende, e um gole de água ardente ali serve de solução. Enquanto dona Davina, com suas mãos benfazejas cortam o umbigo e prepara tudo, acolhendo o bebê, a mãe Mariazinha socorre Tomásia que vivencia pela oitava vez o milagre do nascer.
Dona Davina sorrindo diz seu jargão de parteira  feliz pelo aparado, -  eita sô, quanta alegria, é "burro pra levar carga", machinho do saco roxo, que por Deus é abençoado. Ainda sem muitos panos e pele superficialmente lavada,  nos braços da mãe  querida o rebento é acolhido para a primeira mamada. Mama como um peregrino esfomeado o menino tem potência no sugar, a mãe toda extenuava é rainha entronada soberanamente a reinar. Toda a beleza da vida, toda a poesia do mundo, concentram-se nesse segundo, neste quarto onde estão mãe e filho completando o milagre da vida, que vem se dando desde a fecundação.
O silêncio ali domina, Mariazinha e dona Davina, são estátuas bestificadas olhando  a cena sublime que outra vez se repete, sendo inédita porém. Mãe  e filho se conhecem, se conectam pelo toque, pelo olhar, pelo amamentar. Assim, sacramentam vínculos, que unem almas e escondem raizes, de uma maneira tão divina, que não se pode explicar. Por isso, tudo é silêncio e grande contemplação, uma espécie de oração, onde impera a natureza, sem nenhuma estranheza,  a vida a sacramenrar, num ritual de poesia capaz mesmo de encantar.
No meio da sugeirada, pano, sangue, erva e raizadas, apetrechos de parteiras, bacia, faixas e panos, placenta, fumo e azeite é momento de limpar. Dona Davina completa o serviço, limpa banha e veste a mãe e o menino. A Mãe de Tomásia arruma a cama recolhe os restos do parto comemorando mais um neto que  a vida veio lhe dar.
Tudo limpo e arrumado Tomásia toma um caldo, para se recuperar. Dona Davina comemora, querendo mesmo ir embora, para casa retornar, mas é  alta madrugada, e assim, atende a comadre que insiste em seu pernoitar.
Exausta Maria Tomásia, adormece sossegada com seu filhinho a mamar. As outras deixam o quarto se abrigam na cozinha bem baixinho a conversar. Tomam  cachaça com torresmos, um lanche na madrugada, depois da obra acabada é hora de descansar.
Eu que não dormi direito, curioso e teimoso que sou, caçei no rancho um jeito, da coisa observar. Sabia que alguma coisa muito estranha com mamãe ali estava a se dar. Mas era eu muito novo, sendo o quinto dos irmãos não dava pra imaginar, que naquela noite agitada, nossa vida tão pacata, mais um membro ia ganhar. Só soube no outro dia, quando com permissão de titia pude no quarto adentrar. Mamãe me abençoou, no canto da cama me mostrou um embrulho a dormitar. Ela me disse assim: - esse é seu irmãozin, que acabou de chegar. Confesso nada entendi, meio frustrado saí dali e fui pra vida brincar.
Dona Davina foi embora ficamos nós e vovó agora e a mamãe acamada com aquele embrulho de lado. Dois dias foram passados e então papai chegou para meu mundo alegrar. Aos poucos me adaptei e o irmão aceitei com a vida a passar. Mamãe logo  se recuperou e a rotina voltou sem nada se alterar, o irmãozinho crescia e muitas vezes eu queria seus lindos olhos pegar, mas logo mamãe brigava, para isso semente bastava, meus dedinhos curiosos, daqueles olhos brilhosos tentar se aproximar.
Quantas memórias guardadas, parecia quase nada quando me pus a narrar. É que pra falar do parto, recordei amor e vida, revivi horas perdidas nos braços da emoção. E assim, percebo convicto que o parto  natural  é bênção pra toda a família. Já o parto artificial é feito no hospital, sem emoção, sem esse tipo de memórias que nos constrói e vinculam, com um bando de estranhos, tem um homem no comando e é um rito sem poesia. A natureza ali excluída, vê a mulher sua escolhida, vitimada enfraquecida,  da vida anestesiada. E a poesia divina que dormia na menina é  pelo médico amputada, em nome da praticidade e uma tal modernidade, civilidade e esterilizadora que esvazia o ser humano, esse momento profanando. Partos em escala de produção, agendados no balcão de uma casa de doenças. A vida perde a poesia, o nascer perde a essência e virá mercadoria e as dores no parto evitadas, sem generalizações e nem determinamos, vão solidificando o câncer do egoísmo e esfriando as relações. E as dores de que se fugia vão  surgindo e ressurgindo, outras formas assumindo de transtornos e confusões.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Caído





No chão da vida me encontro,
Remoendo todos os meus feitos,
Soterrado em meio aos escombros,
Desse mundo de seres imperfeitos;

Dos amores que tive, que vivi,
Das sementes que na vida plantei,
Lindos frutos em filhas colhi,
Muitos sonhos com lágrimas teguei;

E o tempo menino apressado,
Todo afoito a seguir o caminho,
Devorou quinze anos calcados,
A pés descalço com afeto e carinho;

Fiz história, estorias contei,
Eu rezei, eu cantei a pregar,
Em aprender muito me empenhei,
Para poder melhor servir e amar;

Me fiz servo,  amigo e irmão,
Me fiz ombro, coração e ouvidos
Me doei, ofertei minhas mãos,
Acolhendo o que tinha caído;

Me fiz punho, me fiz braço e voz,
Fui à luta e simplesmente lutei,
Pouco a pouco fui deixado a sós,
Justamente por quem eu lutei;

Ressequido, sufocado e perdido,
Vi raiar o louco sol da paixão,
Que voraz devorou -me o juizo
Destruindo o meu fio da razão;

E nos olhos da mais bela flor,
Pelo amor fui então encontrado,
Sem tocá-la ou sentir-lhe o sabor,
Com um olhar fiquei apaixonado;

Foi amor à primeira vista,
Colossal,foi um conto de fadas,
Me perdi feito peixe na isca,
Me achei nos olhos da amada;

Mas para tê-la, para lhe possuir,
Tive que me trair, me vender,
Destruir o sonho que construi,
Nos escombros do sonho perecer;

Foi assim, que me descobri,
E os amigos que eu pensava ter,
Finalmente então conheci,
Bem a tempo de ainda aprender;

Que amigos bem pouvos eu tinha,
E os que tinha muito machuquei,
Pra viver e não morrer hipócrita,
Esses amigos sem querer eu matei;

Todos os demais que eu tanto presava,
Sob a alcunha de amigo ou irmão,
Com minha queda virou-me as costas,
Abandonando-me sem ter compaixão;

Hoje sei que aqui nada tenho,
E o que tenho nunca me deixará,
Pois é livre e eu nunca os retenho,
Deixo-os livres para sorrir e amar;

Já não me engano com doces sorrisos,
Com abraços, acenos e palavras,
Aprendi que tudo que realmente preciso,
O amor Deus já me deu e me aguarda;

A todos que cruzou meu caminho,
Deixo a paz e a minha gratidão,
Em silêncio sigo, às vezes sozinho,
Mas com amor dentro em meu coração.

Soneto em Acróstico





Fazer sua história, seguir seu caminho,
Empenhando-se em viver, vivo estando,
Lutar com amor, fazer tudo com carinho,
Iluminando-se, caindo ou se levantando.

Zombando dos males e perigos da jornada,
Armando-se de sorriso, amor e compaixão,
Na certeza de que só o amor e mais nada,
Ilumina e vence, nossa sombra e escuridão.

Vivendo é aprendiz, ensinando o que aprendeu,
Enquanto inquieto e ávido procura transcender,
Rumo àquele, que de puro amor, um dia o teceu.

Segue seus sonhos e os desejos do coração seu,
Ávido do céu, segue se doando a se enternecer,
Renascendo das trevas, para a luz  do amor Deus.

Inspirado pelo amor segue vencendo a compreender, que no caminho é preciso, que se...
Ore, vigie e ame... Siga, sendo e aceitando o que se é, buscando ser, o ser que se sonha ser. Amando, amando, amando... E assim, pelo amor ir se transformando.




Quando Caímos


Aquiete-se e tenha fé, por acaso, acredite nada é,
Cada um é aquilo que é, vivendo conforme  acredita,
Cada um sofre as dores que na vida tem que viver,
Suportando pela vida, o conjunto de suas desditas.

Só quem sofre os tormentos e os espinhos das dores,
Só quem suporta o peso que tem a sua pesada cruz,
Sabe onde o sapato aperta, onde mora seus dissabores,
Sente as trevas que insistentemente atenta contra sua luz.

Por isso mesmo limite-se a amar e nunca se apresse em julgar,
Se coloque no lugar do outro e tente suas dores entender,
E verás que as vezes a loucura e a morte, nos parecem ser solução.

E já cegos de medo e de dor, desistimos sem forças pra esperar,
E então  não  suportando o fardo, sufocados de tanto sofrer,
Desistimos de tudo e falidos caímos, suplicante pela compaixão.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Coleção Sacramentos

Coleção Sacramentos

1-Batismo

Incrédulo e sem razão,
Eu negava o amor.
Negava sua existência,
Negava sua benemerência,
Negava sua eficiência.
Um pérfido de coração,
Eu só cria mesmo, era na dor.
Essa dor da existência,
Devoradora de consciências,
Mãe e irmã do desepero.
Que leva-nos ao pesadelo,
De nos vender a qualquer preço.
Mas num dia casual,
Veio você afinal,
O meu mundo transformar.
E a dor que eu cultivava,
Mutilando meu coração,
Devorando-me a razão,
E empobrecendo- me a emoção,
Por teu olhar foi vencida,
Dando vida a minha vida.
Me vencendo afinal.
E assim,  tu me sorristes,
Com um olhar me sedusistes,
E por fim, me condusistes,
Ao teu corpo batismal.
E na pira do teu fogo,
Queimastes o velho eu,
Fazendo surgir o novo,
Batizado pelo amor,
Nas águas ferteis do teu gozo.
E sendo o novo ser que sou,
Eu só vivo pra você,
Sou servo do teu amor.


2- Eucaristia

No sagrado templo do amor,
Coloco-me desnudo e contrito,
Reverente e cheio de grande ardor,
Onde banqueteio-me, a cear contigo.

Nos seus olhos vejo o amor fulgurante,
Em seu toque, toda a perfeita sublimidade,
Em seus lábios, a confissão dos amantes,
Em meu eu a fluir a plena felicidade.

Devotado, me deito em seu leito altar,
E me ofereço, em pleno ato de oblação,
Recebendo-te oferenda, na mesma medida.

Comungando nossos corpos, no ato de amar,
Eucaristia dos amantes, numa mesma oração,
Nos tornamos um, a comungar a mesma vida.



3 -Confirmação

No crivo das dores de cada dia,
O tormento das horas nos ronda,
A rotina sequiosa nos cerca,
Os problemas nos abalam e desafiam.

A distância nos quer separar,
Nos mantendo das horas, reféns,
Tantos olhos nos olham, nos buscam,
Tantas vozes, nos gritam, doutrinam.

Mas no oculto templo de minh'alma,
Onde somente eu e o amor adentramos,
No secreto quarto de meu ser,
Onde eu e você, pelo amor, sendo um habitamos.

Nesse quarto, de portas fechadas,
Onde o pai amor, nos ouve e acompanha,
Eu num rito sacrossanto de amor,
Professo silenciosamente em meu coração,
Sobre os descompassos do amar,
Dando à vida minha confirmação,

Como a crisma confirma o batismo,
Confirmando uma escolha e vocação,
Eu confirmo com o jorrar de minh'alma,
Num oceano de amor em convulsão.

Que te amo, te quero e te preciso,
Sois meu amor, meu afeto e paixão,
Sois meu sol e meu eu, em outro eu,
És a vida, que conserva a vida,
Dando luz e vida, ao meu coração.


4 - Matrimônio

Me casei,
Me entreguei e amei.
Procriei,
Recriei a cantar...

E a vida gerou novas vidas,
No selvagem exercicio do amar.
Nos rituais sacramentais da instituição,
Me enredei e me casei,
Fiz papel,
Coloquei em outro dedo aliança.

Mas trai o que um dia jurei,
O matrimônio que então contrai,
Se contraiu no compasso dos dias,
Em pecado de não amar a quem jurei,
Vi-me enredado nas trevas da rebeldia.

Mas o amor que a tudo ordena,
Não se encarcera em vis tradições,
Nem condena o que ama imensamente,
E se entrega, a viver de emoções.

Entre o falso matrimônio jurado,
Falseado pelo arrefecido sentimento,
Optei por seguir meus desejos,
Te encontrando em sublime momento.

E se escândalos muitos causei,
Ao encontrar-te contigo me casei,
Com um olhar descobri-me em ti,
Com um beijo,
Fizemos nosso matrimônio.


5 -Penitência

Confesso que amei...
Confesso que sonhei...
Confesso que acreditei...
Confesso que tentei...
Confesso que servi...
Confesso que li e reli...
Confesso que temi...
Confesso que fugi...
Confesso que senti...
Confesso que não fiz por mal,
Confesso, sou humano afinal,
Confesso que meu instinto animal,
Solapou meu desejo racional,
E fez-me presa desse amor transcendental.

Confesso, sem esse amor nada sou...
Confesso, meus erros e pecados
Confesso, minhas trevas meus medos mais guardados
Confesso...
E ao confessar peço perdão...

Perdão por decepcionar a tantos,
Perdão por amar assim,
Perdão por acreditar no amor e na sua liberdade,
Perdão por não pedir perdão.

Perdão por ter pecado,
Perdão por perder de vista a noção de pecado,
Perdão por ter acreditado,
Que é certo inventar pecados,
E que manter o ser aprisionado seja o único e real pecado.

Perdão por gostar tanto do pecado, com seu amargo adocicado!

Perdão... perdão...
Por ser um ser que sente, sonha, deseja e quer...
Um ser que não se retém por medo ou covardia,
Um ser que teme a própria consciência e foge da hipocrisia.

Perdão por ser um homem injusto e imperfeito,
Em busca de justiça e perfeição,
Perdão por ouvir os apelos do desejo,
E me doar sem medida ou reservas.

Perdão por decepcionar a tantos, para saciar às minhas mais íntimas e essenciais necessidades...

Perdão... perdão por minha sinceridade,
Perdão por minha honestidade para com o outro e principalmente para comigo mesmo.

Perdão pela poesia pobre e vazia,
Perdão por esses meus versos,
Perdão por minha confissão,
Perdão por acreditar e viver o amor...
E por amor confesso...
E por amor perdão peço...
E por amor confesso,
Que por amor, outra vez e mais uma vez...
Se preciso for... pecarei.



6 - Ordem

O amor me ordenou...
Ordenou que eu ame,
Ordenou que eu sinta,
Ordenou que sonhe,
Ordenou que eu deseje,
Ordenou que eu pense,
Ordenou que eu veja,
O amor me ordenou...

Ordenou-me sacerdote do amor.
Ordenou-me para sempre e eternamente.
Sacerdote segundo a ordem de philos, eros e ágape.

O amor me ordenou...
E assim, obedeço,
Assim, cumpro meu sacerdócio,
Às vezes amargo, às vezes doce,
Entre erros e acertos,
Tombos e tropeços,
Lágrimas e sorrisos,
No exercício do amar cumprindo a ordem do amor.

Vou estando como estou, a caminho do que serei...
Nos braços do amor que é,
Vivendo meu inferno e meu paraíso.

No calor do seu toque,
No fulgor dos seus olhos,
No néctar dos seus lábios,
Nas águas do seu amor,
Na doçura inebriante do seu sorriso.


7- Unção

Morro a cada instante,
Morro eterno amante,
Na constante busca,
No prazeroso e extenuante exercício do amar.
Morro a cada gozo,
Morro a cada orgasmo,
Morro enfermo que sou,
Doente nesse corpo de carne que o tempo roi e a dor corroi,
Que a mágoa e o egoismo adoece e destroi.
E por isso morro...

Morro, mas morro amando...
Ainda que chorando,
Ainda que sangrando,
Ainda que errado, morro nos braços do amor, feliz a amar...
E o amor me unge com sua unção,
Doce unção dos enfermos, enfermos de todas as enfermidades.

Pois somente o óleo santo do amor traz vida...
E o amor jorra o seu óleo, pelas lágrimas dos seus olhos,
Pelo brilho do seu sorriso,
Pelas águas do seu corpo,
Esse embevecente e magnífico,
Portal que conduz ao céu,
O templo sagrado do amor,
Que se erige e se instala,
Onde haja dois corações,
Dispostos ao amor, ao amar.