quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O Molequinho da Garrafa





Era lá pras beiras de Mato Seco, sim naquelas beiradas é que se deu o caso que todo mundo conhece e sabe de cor. Não os mais moços, pois estes de nada sabem, estão ainda principiando sua caminhada e mesmo achando que sabem de tudo, muita coisas se lhes escapam, coisas muitas vezes não ditas e nem escritas, mas vivas e eternizadas nas memórias e que só saltam ao ouvidos de quem se propõe ouvir, nas horas de conversas e rememorar. Quando a caixa da memória se abre o as mãos do pensamento adentra o escuro da mente e faz sair as lembranças, refazendo uma infinidade de coisas que ninguém jamais viu ou imaginou, ou melhor que poucos viram, ouviram, sonharam, testemunharam e guardaram no silêncio profundo da memória, terra onde nada se perde e tudo permanece para sempre e que vem a luz do conhecimento coletivo cada vez que seus detentores se dispõem a lembrar e a narrar.

Esse caso é mais um de tantos que ouvi nas rodas de prosas e causos da boca de Tio Filipe. Ele homem de oitenta e três anos de idade, vividos ao cabo da enxada na mais árdua e sofrida luta pela sobrevivência. Assim criou ele sua numerosa família e viveu até que a vida ceifou sua companheira e lhe deixou os dias mais repletos de saudade e solidão. Agora velho e aposentado, com saúde pouca e muita vontade de continuar a produzir, satisfaz sua impossibilidade de continuar a vida como sempre viveu, a refazer tudo que fez por meios das lembranças, rememorando e refazendo toda uma vida de luta, labor e alegria.

Foi numa dessas ocasiões de boa prosa, café quente e biscoito caseiro, que vivenciei com ele essa lembrança, que para evitar qualquer ceticismo encontrou lugar nos feitos da família. Assim já não é mentira, estória de pescador, mas fato verídico acontecido com uma sua tia, minha tia avó, que só tomei conhecimento nesta ocasião, por meio de suas lembranças, que me proporcionaram uma aula de genealogia.

O caso é que seu pai Simeão Teixeira da Silva, era filho de família grande, tinha um irmão Malaquias e três irmãs; Eva, Arvilina e Joana todos Teixeira da Silva.

- Malaquias nunca casou, pois era danado para bater em mulher! Judiava demais de mulher meu padrinho Malaquias... Assim ele deu sequencia a narrativa, após alguns segundos de silêncio e de volver o rosto para a luz que o sol ofertava pela porta da sala. – Mas filho ele teve três com umas mulheres que ele arranjou.

Falou a última conversa sobre Malaquias antes de passar a Arvilina.

- Minha tia Arvilina era uma moça bonita pra daná! Ela casou com um senhor de nome Jacinto Costa, lá mesmo no Mato Seco e viveu por lá mesmo. Esse Jacinto Costa era um homem podre de rico! Ocasião que ele bebia cachaça e enchia o talo de pinga, vinha pela rua gritando minha tia. Arvilina, Arvilina, Arvilina... Todo mundo contava isso demais! Bom contavam assim né, assim vi os outros contar, por que eu mesmo num lembro de nada disso não. Eu num era desse tempo. Isso foi muito antes de mim pra eu lembrar.

Mas o homem era bem de vida que era danado!

Ele tinha um quarto na casa dele, o povo contava, que era um segredo danado que ele conservava com esse quarto. Naquele quarto quem labutava era só ele. Trazia o quarto sempre fechado na chave e ninguém entrava nem minha tia Arvilina.

Uma ocasião ele deixou a porta aberta, moco, rarara e foi campear, por lá ficou o dia todo. Ele campeava o dia todo e num trazia um rês que era tudo braba! Mas nesse dia num sei o quê que foi que ele deixou a porta aberta e chegou um rapaz lá e foi malinar no quarto. Abriu a porta e o quarto era vazio, só tinha uma mesa no cento com uma garrafa em cima. Ele olhou aquilo e não entendeu nada. Por que Jacinto guardava tanto mistério com aquele quarto. Pegou a garrafa em cima da mesa e abriu, tirou a rolha, nisso salto um molequinho de dentro da garrafa (era um diabinho que Jacinto criava) o molequinho em cima da mesa perguntou: - e agora pra onde é que eu vou? O rapaz assustado disse: - pra dentro da garrafa! O diabinho pulou de volta, ele arrolhou a garrafa e saiu correndo. Ninguém nunca soube se meu tio Jacinto descobriu isso! Mas todo mundo ficou sabendo o que ele tinha dentro do quarto.

O povo dizia muita coisa dele, que ele tinha parte com o demo, e que por isso era podre de rico, mas é coisa que o povo comenta!