quarta-feira, 24 de outubro de 2012

BELPHEGOR DO ARCAICO A TEMPO PRESENTE

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A velha desdentada e suja arrasta-se com dificuldade pelas ruelas fétidas daquele lugar. O silêncio domina a noite fria e somente ora ou outra algum gemido distante perturba o ambiente, concorrendo com o ecoar de esparsas e longínquas vozes a tilintar pela penumbrada cidadela de Moabe. Em sua cabeça uma voz insistente ecoa em um refrão ininterrupto.

... Joene, Joene, Joene...

Ela se ri e meneia a cabeça num bailado esquisito. Um clarão se faz e lá está ela, jovem e bela a bailar em um longo e branco vertido de seda. Uma seda tão fina, que só os Assírios sabiam produzir com tamanha alvura.

O sangue do sacrifício derrama-se no altar de Belphegor e ela se rejubila ao som das cítaras e das harpas que entoam cantos e levam a assembleia ébria e possessa a adorar o deus dos moabitas num grande festim, de invejável idolatria.

Joene é a bela moabita responsável pelo festim.

Joene está em festa a Belphegor, pedindo uma resposta, uma estratégia para seduzir os adversários que estão acampados a alguns quilômetros no intento de tomar a cidade de Moabe. O sitio dura já alguns dias e a fome e o cansaço castigam os inimigos. Mesmo sua fé já começa a fraquejar, seja qual for o deus a que eles servem, no olhar de cada soldado está estampada a preguiça de continuar o sitio em busca de hora oportuna para o assalto.

Mas antes que eles atacassem ela orou em sua tenda e evocou o grande Belphegor e assim,consagrou-se, pedindo a ele, que é um deus inventivo e poderoso, um ardil que envolvesse o inimigo e os colocassem em sua s mãos.

Desse modo, enquanto dormia em sua tenda, ela recebeu a visita de Belphegor, que lhe possuiu com sua língua fálica, e a fez copular com ele copiosamente durante toda a noite. Enquanto era possuída pelo demônio, era gerado em seu coração o plano para vencer o inimigo.

O dia raiava quando chegava a primeira caravana de batedores dos inimigos, para negociarem a rendição de Moabe sem violência, mas antes que o sol acordasse, Belphegor já havia partido e deixado Joene na entrada da cidade, pronta para agir.

Assim ela correu nas sete tendas dos sente descendentes de Ló, o fundador da cidade de Moabe e pegou uma virgem de cada casa. E as conduziu até a entrada da cidade, onde esperava a chegada dos inimigos. Todas vestidas de belas sedas assírias exibiam seus belos corpos em requintados vestidos e indisfarçáveis adornos. Quando chegaram os sete cavaleiros da caravana de batedores, foram seduzidos pelas virgens de Moabe e arrastados para suas tendas, onde as possuíram e foram vencidos por Belphegor.

Sete dias se passaram até que uma nova caravana chegasse à cidade. E quando esta chegou lá estavam novamente as mulheres de Moabe, belamente ornadas e armadas para seduzi-los e leva-los ás suas tendas. Assim se sucedeu sete vezes com sete caravanas, até que por fim todo o acampamento inimigo marchou sobre Moabe e grande foi o espanto deles quando lá chegaram e encontraram suas sete caravanas de batedores mortos e sacrificados a Belphegor. Seu sangue era queimado numa pira de sacrifícios em frente à tenda de cada chefe. Havia sete cabeças espetadas numa estaca exposta como troféus.

O povo em algazarra dançava e cantava e grande era a festança que ali acontecia.

Ao ver se aproximar dos portões da cidade aquele cordão de homens do exercito inimigo, os principais da cidade reuniram-se em conselho e evocaram Belphegor. Sua resposta foi dada pela boca de Joene, que apresentando se aos anciãos disse:

- Não pegueis em armas. Nada será do vosso modo, eis o que diz Belphegor. “Façamos uma grande festa e não sesseis de cantar e dançar e de sacrificar a baal, pois nosso ócio, e nossos vícios são para ele agradável louvor”.

O mais velho da tribo dos moabitas tentou retrucar e convidar os homens a pegar nas armas e defender a sua casa, como sempre fizeram desde que ali se assentaram, mas Joene insistiu...

- Tragam suas filhas! Trazei todas elas, todas ornadas. Façais um grande banquete e cevemos, pois, estes varões, na preguiça e na folga. Assim engordaremos seus corações para uma grande matança. Assim diz o grande Belphegor.

Os homens do exercito inimigo entrarão nos muros da cidade ao cair da noite, precisamos correr e preparar a grande festa.

E assim todos confiaram em Belphegor pela palavra que ouviram da boca de Joene e aceitam o que ela disse.

Quando rompeu a noite e o sol desvaneceu no horizonte o pisar de uma multidão de homens encheu a cidade. Desde que entraram no vale de Moabe até o momento de sua entrada nos portões da cidade, uma névoa gélida e perfumada penetrava-lhes os pulmões vencendo - lhes o vigor e enchendo-os de um grande cansaço, muitos começaram a perguntar o porque de fazer aquilo. Se de fato havia razão para o que intentavam fazer e se melhor não seria selar a paz com os moabitas e formarem um a só família, servindo a um mesmo deus? Os pensamentos se confundiam em suas mentes e corações, quando os sete anciãos compareceram ao pátio na entrada da cidade e os recepcionaram em grande alegria. Com músicas e danças, conduziram -nos a uma grande tenda armada para a ocasião da festa, onde ao centro estava o altar de baal e a pira de sacrifícios.

Ali se falaram e acolheram-se mutuamente. Carnes foram trazidas e vinhos foram servidos. E os homens se banquetearam em profusão. Nunca haviam comido carnes tão tenras e saborosas.

Não era prática dessa gente comer a carne dos inimigos, tampouco era esta uma práxis dos Moabitas, mas na ocasião era um brilho a mais na festa e uma ordem de Belphegor, o demônio da preguiça, pois este decidiu servir aos soldados as carnes dos seus próprios irmãos. Nunca haviam tomado vinho tão bom e nem nunca haviam visto mulheres tão lascivas, belas, luxuriantes e irresistíveis. Uma paixão cega corroía-os por dentro e assim rendiam se sem forças para resistir-lhes.

Quando à meia noite o cantarolar das corujas anunciavam os agouros dos infernos, eis que todas as mulheres de Moabe se apresentaram à tenda ornada de pedras e belas sedas, exibindo seus corpos esculturais e enfeitiçando os soldados inimigos.

Um ritual bacante se instalara daquele momento em diante e num instante todos estavam aos pés de Belphegor, cantando seus louvores e adorando-o nas carnes e na luxuria das moabitas.

O bacante festim dura por toda a noite até as três da manhã.

Quando o sol raia os homens estão ébrios e adornados então as filhas de Moabe decepam lhes as cabeças deixando sobrar tão somente sete homens para regressar a seu acampamento e marrar-lhes a gloria e o poder de Moabe sob a proteção do invencível Belphegor.

Antes que a caravana dos sete remanescentes do exército inimigo parta são colocadas no lombo de um jumento as cabeças decepadas dos homens e encaminhado um pergaminho que narra a noite de adoração a Belphegor. Onde todo um exército fora massacrado e reduzido a cabeças sem corpos, e os corpos foram queimados na pira de sacrifício. A matança foi surpreendente e um mar de sangue correu pelas ruas de Moabe. Somente sete soldados sobreviveram pela misericórdia de Joene para testemunhar a gloria de Belphegor e o poder de Moabe.

Os soldados vencidos, foram vítimas naquela noite tão somente pela força da preguiça que ele lhes infundiu por meio daquela névoa gélida no vale de Moabe à entrada da cidade, pois dos poderes de Belphegor, nenhum é mais eficaz do que a preguiça, Joene foi o instrumento de Belphegor, ele a escolheu por entender que na pele de uma mulher bela jovem e astuta, a preguiça ganharia os corações dos soldados com maior facilidade, sobretudo neste contexto de um mundo machista e dominado pela luxuria e pela embriaguez.

Assim o deus dos moabitas ganhou o mundo onde se faz eterno no corpo de todos os humanos, que adoram os festins bacantes de Belphegor, ainda que se camuflem nas mais variadas peles e escoram-se nos mais diversos credos. Escondem-se nos hábitos e batinas, nos quimonos e togas ocultam-se nas filas da comunhão, nos ritos batismais, nas festas de sacrifícios, no deitar e no levantar...

A preguiça está entranhada em seus genes, aqueles sete remanescentes da batalha ganharam outro caminho e nunca retornaram a sua aldeia. Partiram cada um a um canto da terra como semente. Tomaram mulher e tiveram filhos e nunca abandonaram os ritos moabitas de adoração a Belphegor, dessas sete tribos que se espalharam pelo mundo nasceram filhos e filhas que geraram a todos nós.

Como herança deixou aos seus, Belphegor e o dom da preguiça.

A preguiça é o mais presente dos pecados. Hoje ela é chamada por muitos nomes, stress, falta de tempo, indisposição, medo, falta de oportunidade, necessidade... E ela continua a cevar os corações e a sacrificá-los na pira de Belphegor. Continuam os homens a comer a carne de seus semelhantes sacrificados dia após dia para gerar conforto. Continuam a tomar o doce vinho da preguiça, que lhes é servido a todo instante.

Escravizados pelo fascínio, da beleza e praticidade, ancorados no seio da preguiça, vivem o telemarketing, o tele sexo, o fast food, a televisão, o cinema, o computador... Aposentaram o corpo e abriram mão do exercício físico. Assim Belphegor gerou a obesidade, as cardiopatias, hipertensão, diabetes, síndrome do pânico, xenofobia, antropofagia e antropopatia.

Nasceu então, uma infinidade de males causados pela preguiça. Preguiça de falar, preguiça de mexer, preguiça de andar, preguiça de trabalhar, preguiça de produzir, de criar, de sorrir, preguiça de amar, de pensar... Assim é o tempo presente dissimulando sua idolatria a Belphegor.

A bela e jovem Joene fora consumida pela preguiça e dilatou-se, transmutou-se virou névoa e espalhou-se pelo mundo inteiro, carregada pelo vento é chamada pelo desejo e preguiça, cujo germes estão intrínsecos à matéria humana. E embora ela seja uma velha suja feia e desdentada, inspirando morbidez e nefastidão, onde há um descentemente dos sente remanescente dos adoradores de Belphegor, ali ela está a lançar os cultos de seu deus o demônio da preguiça e este a adora bela e irresistível, como também assim pareceu aos soldados inimigos naquele dia em Moabe... Hoje velha e desdentada, pois a preguiça consome tudo que temos inclusive a beleza e juventude, Joene é um arauto de Belphegor, contra ela não há tranca e nem fechadura ela entra em forma de névoa e se instala em todos os lares, em todos os corações.

Todas as vezes que o germe da preguiça se insinua no ser humano e ele não está vigilante para refreá-lo o mantra silencioso, dócil e voraz traz de longe a força de Belphegor, no refrão mântrico a ecoar cálida e suavemente a canção da preguiça... Joene, Joene, Joene... Por que a preguiça também é dom de deus, deus a amou, embora o trabalho dignifique. Pois trabalhou deus seis dias e quando a preguiça ouriçou-se em si, ele cantou... Joene, Joene, Joene... E deixou de criar e contemplou assim o Belphegor que em si havia desde sempre. Assim abandonou o trabalho e descansou, pois já havia criado o homem e a mulher, para prosseguir o seu trabalho, enquanto ele iria eternamente curtir sua preguiça, numa ironia antropófaga.

E desde então o mundo adora Belphegor incitados por Joene que entra pelas narinas e pelos ouvidos e preenche toda a extensão dos pulmões da mente e do coração fazendo se hóspede vitalício. Dormitando nos corações e atrofiando as almas até que esteja o individuo à sua imagem e semelhança, transmutado e enevoado pela língua fálica de Belphegor, a possuir lhe eternamente. Gerando assim uma infinidade de moabitas em todas as tribos e nações do mundo. Todos entoando o mesmo refrão... Joene, Joene, Joene...





OS VERSOS QUE FIZ PRA VOCÊ

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Quando te vi me lembro, tremi... Não foi medo, não foi desconforto.
Foi o tremor de quando duas forças se encontram, assim foi quando te vi pela primeira vez.
Seu jeito imprimiu em mim a sua imagem. Seu rosto de fortes traços, seu semblante belo e feminino, mas de uma inquebrantável força e vivacidade, causou-me certo desconforto, mas não podia evitar-te...
Seu corpo marcado pela maternidade não perdera o encanto, exibia-se em um belo traje vermelho que ressaltava sua sensualidade e volúpia conferindo-lhe certo ar de deidade.
Prostrei-me como convém ao mortal ante uma divindade. Sofri ao deixar-te!
Partistes incólume em sua magnifica e sublime postura avassaladora...
Os dias trouxe-te de volta e apressou se em nos aproximar, juntar nos num mesmo labor.
Que nos fez estranhamente íntimos distantemente próximos maravilhosamente cumplices e convergentes...
Assim rendi-me, apaixonei-me e perdi o zelo estanque numa rua de chão qualquer...
Falamos de nós...
Falastes de ti...
Falei de mim...
Vi que te conquistei...
Vistes que eras teu...
Mas atados pela impossibilidade inexplicável de nos possuirmos, impedidos pela conveniência que nos separava.
Possuídos pelo mesmo desejo de estarmos juntos, perto, nos olhando, nos desejando, nos tocando... Pois tocamo-nos!
Tocamo-nos não com a pele, não com a mão, não com o corpo... Mas tocamo-nos com a alma... Um ao outro.
Tocastes-me na essência, na minha poesia e assim se eternizastes em meu verso...
Se fez inspiração, se fez verso, se fez poesia em mim.
Me fiz versejador, me fiz inspirado, me fiz poeta e me desaguei em poesia... Poesia que só podia falar de ti!
E você se fez assim... Ausente! Partindo... Voltando para seu mundo e legando ao meu um sentimento de perda, uma dor, um vazio... Até que em meus olhos vi seu rosto...
Em meus versos vi suas formas... Em meu olfato senti seu cheiro... Em meu reflexo vi seu corpo, sua imagem...
Então compreendi que sou teu e que sois minha... Independente que qualquer coisa.
Nem o tempo, nem a distância, nem as leis e as proibições, nem a moral e a tradição, nada pode separar-nos, tirar-nos um do outro...
Assim, caminho sereno ciente que tua ausência só ressalta a tua presença em mim... Que somos um do outro, para sempre...
Ainda que não mais estejamos juntos, ainda que jamais habitemos o mesmo corpo e partilhemos o mesmo prazer... Serei sempre seu e serás sempre minha, pois, o que vivemos nada nos pode tirar...