quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O Molequinho da Garrafa





Era lá pras beiras de Mato Seco, sim naquelas beiradas é que se deu o caso que todo mundo conhece e sabe de cor. Não os mais moços, pois estes de nada sabem, estão ainda principiando sua caminhada e mesmo achando que sabem de tudo, muita coisas se lhes escapam, coisas muitas vezes não ditas e nem escritas, mas vivas e eternizadas nas memórias e que só saltam ao ouvidos de quem se propõe ouvir, nas horas de conversas e rememorar. Quando a caixa da memória se abre o as mãos do pensamento adentra o escuro da mente e faz sair as lembranças, refazendo uma infinidade de coisas que ninguém jamais viu ou imaginou, ou melhor que poucos viram, ouviram, sonharam, testemunharam e guardaram no silêncio profundo da memória, terra onde nada se perde e tudo permanece para sempre e que vem a luz do conhecimento coletivo cada vez que seus detentores se dispõem a lembrar e a narrar.

Esse caso é mais um de tantos que ouvi nas rodas de prosas e causos da boca de Tio Filipe. Ele homem de oitenta e três anos de idade, vividos ao cabo da enxada na mais árdua e sofrida luta pela sobrevivência. Assim criou ele sua numerosa família e viveu até que a vida ceifou sua companheira e lhe deixou os dias mais repletos de saudade e solidão. Agora velho e aposentado, com saúde pouca e muita vontade de continuar a produzir, satisfaz sua impossibilidade de continuar a vida como sempre viveu, a refazer tudo que fez por meios das lembranças, rememorando e refazendo toda uma vida de luta, labor e alegria.

Foi numa dessas ocasiões de boa prosa, café quente e biscoito caseiro, que vivenciei com ele essa lembrança, que para evitar qualquer ceticismo encontrou lugar nos feitos da família. Assim já não é mentira, estória de pescador, mas fato verídico acontecido com uma sua tia, minha tia avó, que só tomei conhecimento nesta ocasião, por meio de suas lembranças, que me proporcionaram uma aula de genealogia.

O caso é que seu pai Simeão Teixeira da Silva, era filho de família grande, tinha um irmão Malaquias e três irmãs; Eva, Arvilina e Joana todos Teixeira da Silva.

- Malaquias nunca casou, pois era danado para bater em mulher! Judiava demais de mulher meu padrinho Malaquias... Assim ele deu sequencia a narrativa, após alguns segundos de silêncio e de volver o rosto para a luz que o sol ofertava pela porta da sala. – Mas filho ele teve três com umas mulheres que ele arranjou.

Falou a última conversa sobre Malaquias antes de passar a Arvilina.

- Minha tia Arvilina era uma moça bonita pra daná! Ela casou com um senhor de nome Jacinto Costa, lá mesmo no Mato Seco e viveu por lá mesmo. Esse Jacinto Costa era um homem podre de rico! Ocasião que ele bebia cachaça e enchia o talo de pinga, vinha pela rua gritando minha tia. Arvilina, Arvilina, Arvilina... Todo mundo contava isso demais! Bom contavam assim né, assim vi os outros contar, por que eu mesmo num lembro de nada disso não. Eu num era desse tempo. Isso foi muito antes de mim pra eu lembrar.

Mas o homem era bem de vida que era danado!

Ele tinha um quarto na casa dele, o povo contava, que era um segredo danado que ele conservava com esse quarto. Naquele quarto quem labutava era só ele. Trazia o quarto sempre fechado na chave e ninguém entrava nem minha tia Arvilina.

Uma ocasião ele deixou a porta aberta, moco, rarara e foi campear, por lá ficou o dia todo. Ele campeava o dia todo e num trazia um rês que era tudo braba! Mas nesse dia num sei o quê que foi que ele deixou a porta aberta e chegou um rapaz lá e foi malinar no quarto. Abriu a porta e o quarto era vazio, só tinha uma mesa no cento com uma garrafa em cima. Ele olhou aquilo e não entendeu nada. Por que Jacinto guardava tanto mistério com aquele quarto. Pegou a garrafa em cima da mesa e abriu, tirou a rolha, nisso salto um molequinho de dentro da garrafa (era um diabinho que Jacinto criava) o molequinho em cima da mesa perguntou: - e agora pra onde é que eu vou? O rapaz assustado disse: - pra dentro da garrafa! O diabinho pulou de volta, ele arrolhou a garrafa e saiu correndo. Ninguém nunca soube se meu tio Jacinto descobriu isso! Mas todo mundo ficou sabendo o que ele tinha dentro do quarto.

O povo dizia muita coisa dele, que ele tinha parte com o demo, e que por isso era podre de rico, mas é coisa que o povo comenta!

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

BELPHEGOR DO ARCAICO A TEMPO PRESENTE

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A velha desdentada e suja arrasta-se com dificuldade pelas ruelas fétidas daquele lugar. O silêncio domina a noite fria e somente ora ou outra algum gemido distante perturba o ambiente, concorrendo com o ecoar de esparsas e longínquas vozes a tilintar pela penumbrada cidadela de Moabe. Em sua cabeça uma voz insistente ecoa em um refrão ininterrupto.

... Joene, Joene, Joene...

Ela se ri e meneia a cabeça num bailado esquisito. Um clarão se faz e lá está ela, jovem e bela a bailar em um longo e branco vertido de seda. Uma seda tão fina, que só os Assírios sabiam produzir com tamanha alvura.

O sangue do sacrifício derrama-se no altar de Belphegor e ela se rejubila ao som das cítaras e das harpas que entoam cantos e levam a assembleia ébria e possessa a adorar o deus dos moabitas num grande festim, de invejável idolatria.

Joene é a bela moabita responsável pelo festim.

Joene está em festa a Belphegor, pedindo uma resposta, uma estratégia para seduzir os adversários que estão acampados a alguns quilômetros no intento de tomar a cidade de Moabe. O sitio dura já alguns dias e a fome e o cansaço castigam os inimigos. Mesmo sua fé já começa a fraquejar, seja qual for o deus a que eles servem, no olhar de cada soldado está estampada a preguiça de continuar o sitio em busca de hora oportuna para o assalto.

Mas antes que eles atacassem ela orou em sua tenda e evocou o grande Belphegor e assim,consagrou-se, pedindo a ele, que é um deus inventivo e poderoso, um ardil que envolvesse o inimigo e os colocassem em sua s mãos.

Desse modo, enquanto dormia em sua tenda, ela recebeu a visita de Belphegor, que lhe possuiu com sua língua fálica, e a fez copular com ele copiosamente durante toda a noite. Enquanto era possuída pelo demônio, era gerado em seu coração o plano para vencer o inimigo.

O dia raiava quando chegava a primeira caravana de batedores dos inimigos, para negociarem a rendição de Moabe sem violência, mas antes que o sol acordasse, Belphegor já havia partido e deixado Joene na entrada da cidade, pronta para agir.

Assim ela correu nas sete tendas dos sente descendentes de Ló, o fundador da cidade de Moabe e pegou uma virgem de cada casa. E as conduziu até a entrada da cidade, onde esperava a chegada dos inimigos. Todas vestidas de belas sedas assírias exibiam seus belos corpos em requintados vestidos e indisfarçáveis adornos. Quando chegaram os sete cavaleiros da caravana de batedores, foram seduzidos pelas virgens de Moabe e arrastados para suas tendas, onde as possuíram e foram vencidos por Belphegor.

Sete dias se passaram até que uma nova caravana chegasse à cidade. E quando esta chegou lá estavam novamente as mulheres de Moabe, belamente ornadas e armadas para seduzi-los e leva-los ás suas tendas. Assim se sucedeu sete vezes com sete caravanas, até que por fim todo o acampamento inimigo marchou sobre Moabe e grande foi o espanto deles quando lá chegaram e encontraram suas sete caravanas de batedores mortos e sacrificados a Belphegor. Seu sangue era queimado numa pira de sacrifícios em frente à tenda de cada chefe. Havia sete cabeças espetadas numa estaca exposta como troféus.

O povo em algazarra dançava e cantava e grande era a festança que ali acontecia.

Ao ver se aproximar dos portões da cidade aquele cordão de homens do exercito inimigo, os principais da cidade reuniram-se em conselho e evocaram Belphegor. Sua resposta foi dada pela boca de Joene, que apresentando se aos anciãos disse:

- Não pegueis em armas. Nada será do vosso modo, eis o que diz Belphegor. “Façamos uma grande festa e não sesseis de cantar e dançar e de sacrificar a baal, pois nosso ócio, e nossos vícios são para ele agradável louvor”.

O mais velho da tribo dos moabitas tentou retrucar e convidar os homens a pegar nas armas e defender a sua casa, como sempre fizeram desde que ali se assentaram, mas Joene insistiu...

- Tragam suas filhas! Trazei todas elas, todas ornadas. Façais um grande banquete e cevemos, pois, estes varões, na preguiça e na folga. Assim engordaremos seus corações para uma grande matança. Assim diz o grande Belphegor.

Os homens do exercito inimigo entrarão nos muros da cidade ao cair da noite, precisamos correr e preparar a grande festa.

E assim todos confiaram em Belphegor pela palavra que ouviram da boca de Joene e aceitam o que ela disse.

Quando rompeu a noite e o sol desvaneceu no horizonte o pisar de uma multidão de homens encheu a cidade. Desde que entraram no vale de Moabe até o momento de sua entrada nos portões da cidade, uma névoa gélida e perfumada penetrava-lhes os pulmões vencendo - lhes o vigor e enchendo-os de um grande cansaço, muitos começaram a perguntar o porque de fazer aquilo. Se de fato havia razão para o que intentavam fazer e se melhor não seria selar a paz com os moabitas e formarem um a só família, servindo a um mesmo deus? Os pensamentos se confundiam em suas mentes e corações, quando os sete anciãos compareceram ao pátio na entrada da cidade e os recepcionaram em grande alegria. Com músicas e danças, conduziram -nos a uma grande tenda armada para a ocasião da festa, onde ao centro estava o altar de baal e a pira de sacrifícios.

Ali se falaram e acolheram-se mutuamente. Carnes foram trazidas e vinhos foram servidos. E os homens se banquetearam em profusão. Nunca haviam comido carnes tão tenras e saborosas.

Não era prática dessa gente comer a carne dos inimigos, tampouco era esta uma práxis dos Moabitas, mas na ocasião era um brilho a mais na festa e uma ordem de Belphegor, o demônio da preguiça, pois este decidiu servir aos soldados as carnes dos seus próprios irmãos. Nunca haviam tomado vinho tão bom e nem nunca haviam visto mulheres tão lascivas, belas, luxuriantes e irresistíveis. Uma paixão cega corroía-os por dentro e assim rendiam se sem forças para resistir-lhes.

Quando à meia noite o cantarolar das corujas anunciavam os agouros dos infernos, eis que todas as mulheres de Moabe se apresentaram à tenda ornada de pedras e belas sedas, exibindo seus corpos esculturais e enfeitiçando os soldados inimigos.

Um ritual bacante se instalara daquele momento em diante e num instante todos estavam aos pés de Belphegor, cantando seus louvores e adorando-o nas carnes e na luxuria das moabitas.

O bacante festim dura por toda a noite até as três da manhã.

Quando o sol raia os homens estão ébrios e adornados então as filhas de Moabe decepam lhes as cabeças deixando sobrar tão somente sete homens para regressar a seu acampamento e marrar-lhes a gloria e o poder de Moabe sob a proteção do invencível Belphegor.

Antes que a caravana dos sete remanescentes do exército inimigo parta são colocadas no lombo de um jumento as cabeças decepadas dos homens e encaminhado um pergaminho que narra a noite de adoração a Belphegor. Onde todo um exército fora massacrado e reduzido a cabeças sem corpos, e os corpos foram queimados na pira de sacrifício. A matança foi surpreendente e um mar de sangue correu pelas ruas de Moabe. Somente sete soldados sobreviveram pela misericórdia de Joene para testemunhar a gloria de Belphegor e o poder de Moabe.

Os soldados vencidos, foram vítimas naquela noite tão somente pela força da preguiça que ele lhes infundiu por meio daquela névoa gélida no vale de Moabe à entrada da cidade, pois dos poderes de Belphegor, nenhum é mais eficaz do que a preguiça, Joene foi o instrumento de Belphegor, ele a escolheu por entender que na pele de uma mulher bela jovem e astuta, a preguiça ganharia os corações dos soldados com maior facilidade, sobretudo neste contexto de um mundo machista e dominado pela luxuria e pela embriaguez.

Assim o deus dos moabitas ganhou o mundo onde se faz eterno no corpo de todos os humanos, que adoram os festins bacantes de Belphegor, ainda que se camuflem nas mais variadas peles e escoram-se nos mais diversos credos. Escondem-se nos hábitos e batinas, nos quimonos e togas ocultam-se nas filas da comunhão, nos ritos batismais, nas festas de sacrifícios, no deitar e no levantar...

A preguiça está entranhada em seus genes, aqueles sete remanescentes da batalha ganharam outro caminho e nunca retornaram a sua aldeia. Partiram cada um a um canto da terra como semente. Tomaram mulher e tiveram filhos e nunca abandonaram os ritos moabitas de adoração a Belphegor, dessas sete tribos que se espalharam pelo mundo nasceram filhos e filhas que geraram a todos nós.

Como herança deixou aos seus, Belphegor e o dom da preguiça.

A preguiça é o mais presente dos pecados. Hoje ela é chamada por muitos nomes, stress, falta de tempo, indisposição, medo, falta de oportunidade, necessidade... E ela continua a cevar os corações e a sacrificá-los na pira de Belphegor. Continuam os homens a comer a carne de seus semelhantes sacrificados dia após dia para gerar conforto. Continuam a tomar o doce vinho da preguiça, que lhes é servido a todo instante.

Escravizados pelo fascínio, da beleza e praticidade, ancorados no seio da preguiça, vivem o telemarketing, o tele sexo, o fast food, a televisão, o cinema, o computador... Aposentaram o corpo e abriram mão do exercício físico. Assim Belphegor gerou a obesidade, as cardiopatias, hipertensão, diabetes, síndrome do pânico, xenofobia, antropofagia e antropopatia.

Nasceu então, uma infinidade de males causados pela preguiça. Preguiça de falar, preguiça de mexer, preguiça de andar, preguiça de trabalhar, preguiça de produzir, de criar, de sorrir, preguiça de amar, de pensar... Assim é o tempo presente dissimulando sua idolatria a Belphegor.

A bela e jovem Joene fora consumida pela preguiça e dilatou-se, transmutou-se virou névoa e espalhou-se pelo mundo inteiro, carregada pelo vento é chamada pelo desejo e preguiça, cujo germes estão intrínsecos à matéria humana. E embora ela seja uma velha suja feia e desdentada, inspirando morbidez e nefastidão, onde há um descentemente dos sente remanescente dos adoradores de Belphegor, ali ela está a lançar os cultos de seu deus o demônio da preguiça e este a adora bela e irresistível, como também assim pareceu aos soldados inimigos naquele dia em Moabe... Hoje velha e desdentada, pois a preguiça consome tudo que temos inclusive a beleza e juventude, Joene é um arauto de Belphegor, contra ela não há tranca e nem fechadura ela entra em forma de névoa e se instala em todos os lares, em todos os corações.

Todas as vezes que o germe da preguiça se insinua no ser humano e ele não está vigilante para refreá-lo o mantra silencioso, dócil e voraz traz de longe a força de Belphegor, no refrão mântrico a ecoar cálida e suavemente a canção da preguiça... Joene, Joene, Joene... Por que a preguiça também é dom de deus, deus a amou, embora o trabalho dignifique. Pois trabalhou deus seis dias e quando a preguiça ouriçou-se em si, ele cantou... Joene, Joene, Joene... E deixou de criar e contemplou assim o Belphegor que em si havia desde sempre. Assim abandonou o trabalho e descansou, pois já havia criado o homem e a mulher, para prosseguir o seu trabalho, enquanto ele iria eternamente curtir sua preguiça, numa ironia antropófaga.

E desde então o mundo adora Belphegor incitados por Joene que entra pelas narinas e pelos ouvidos e preenche toda a extensão dos pulmões da mente e do coração fazendo se hóspede vitalício. Dormitando nos corações e atrofiando as almas até que esteja o individuo à sua imagem e semelhança, transmutado e enevoado pela língua fálica de Belphegor, a possuir lhe eternamente. Gerando assim uma infinidade de moabitas em todas as tribos e nações do mundo. Todos entoando o mesmo refrão... Joene, Joene, Joene...





OS VERSOS QUE FIZ PRA VOCÊ

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Quando te vi me lembro, tremi... Não foi medo, não foi desconforto.
Foi o tremor de quando duas forças se encontram, assim foi quando te vi pela primeira vez.
Seu jeito imprimiu em mim a sua imagem. Seu rosto de fortes traços, seu semblante belo e feminino, mas de uma inquebrantável força e vivacidade, causou-me certo desconforto, mas não podia evitar-te...
Seu corpo marcado pela maternidade não perdera o encanto, exibia-se em um belo traje vermelho que ressaltava sua sensualidade e volúpia conferindo-lhe certo ar de deidade.
Prostrei-me como convém ao mortal ante uma divindade. Sofri ao deixar-te!
Partistes incólume em sua magnifica e sublime postura avassaladora...
Os dias trouxe-te de volta e apressou se em nos aproximar, juntar nos num mesmo labor.
Que nos fez estranhamente íntimos distantemente próximos maravilhosamente cumplices e convergentes...
Assim rendi-me, apaixonei-me e perdi o zelo estanque numa rua de chão qualquer...
Falamos de nós...
Falastes de ti...
Falei de mim...
Vi que te conquistei...
Vistes que eras teu...
Mas atados pela impossibilidade inexplicável de nos possuirmos, impedidos pela conveniência que nos separava.
Possuídos pelo mesmo desejo de estarmos juntos, perto, nos olhando, nos desejando, nos tocando... Pois tocamo-nos!
Tocamo-nos não com a pele, não com a mão, não com o corpo... Mas tocamo-nos com a alma... Um ao outro.
Tocastes-me na essência, na minha poesia e assim se eternizastes em meu verso...
Se fez inspiração, se fez verso, se fez poesia em mim.
Me fiz versejador, me fiz inspirado, me fiz poeta e me desaguei em poesia... Poesia que só podia falar de ti!
E você se fez assim... Ausente! Partindo... Voltando para seu mundo e legando ao meu um sentimento de perda, uma dor, um vazio... Até que em meus olhos vi seu rosto...
Em meus versos vi suas formas... Em meu olfato senti seu cheiro... Em meu reflexo vi seu corpo, sua imagem...
Então compreendi que sou teu e que sois minha... Independente que qualquer coisa.
Nem o tempo, nem a distância, nem as leis e as proibições, nem a moral e a tradição, nada pode separar-nos, tirar-nos um do outro...
Assim, caminho sereno ciente que tua ausência só ressalta a tua presença em mim... Que somos um do outro, para sempre...
Ainda que não mais estejamos juntos, ainda que jamais habitemos o mesmo corpo e partilhemos o mesmo prazer... Serei sempre seu e serás sempre minha, pois, o que vivemos nada nos pode tirar...

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Onomatopéias de Amor

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Quando te vejo suspiro fundo
Num beijo piro vou ao céu
Seus olhos são meu sol meu meu mundo
Você é doce mais doce que o mel

Nem bem te vi
Tum tum bateu meu coração
Ai bem te vi me apaixonei
Pum Pum explodiu a paixão

Plac ti plum plá nós dois sobre os lençois
Plac ti plum plá corpos suados amantes sem voz

Tic tac o tempo pára longe de você
Trim trim ligo mil vezes querendo de ver
Fom fom eu piso fundo pra te encontrar
Stric strech é o atríto do nosso abraçar
Slipt slipt bocas e línguas bailando ao céu
Smacks smacks você e eu apaixonados loucos a beijar.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Só Hoje

Não espero o paraiso
Nem a perfeição
Mas, menos rasura e egoismo
Menos idiotice e corrupção
Menos desumanidade e covardia
Só um pouco menos...
Para poder olhar nos olhos do outro e tentar reconhecer-me no reflexo do seu olhar, antes que eu o destrua por refletir-me.
Mas é muita poesia para a realidade 
A vida é dura e canibal, só come outras vidas
E assim... 
Seguimos até que de algozes não tenhamos outra alternativa senão sermos a vitima!
Preciosos dias aqueles que viviamos singeleza e igenuidade pueril!
Talvez aí esteja todas as respostas para as nossas buscas! 
Mas a vida nos empurra na direção contrária
Não há tempo para filosofar na laicidade e simplicidade da contemplação como faziamos...
A ordem é em outro sentido e em outra direção
Até para filosofar você precisa de autorização
Não importa o que você sente e pensa...
Importa como você entende e explica o que os filosofos credênciados deixaram nos...

domingo, 22 de janeiro de 2012

Leituras da Infância


Pensando com Ecléa

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 "Não se lê duas vezes o mesmo livro, isto é, não se relê da mesma maneira um livro. O conjunto de nossas ideias atuais, principalmente sobre a sociedade, nos impediria de recuperar exatamente as impressões e os sentimentos experimentados a primeira vez, (Bosi, Ecléa. Lembranças de Velhos. pp.23)."

Eis por que nunca reli, “Meu Pé de Laranja Lima”! Toda vez que penso neste livro de José Mauro de Vasconcellos, cuja leitura fiz aos oito anos na segunda série primária, no afã da descoberta maravilhante da leitura, reconheço sua importância para minha caminhada de leitor, pois ainda hoje ele figura como a leitura mais incrível que já fiz na vida.
Já havia pensado varias vezes em relê-lo, mas por inúmeros motivos desisti. Mas o mais insistente dos motivos, sempre foi o medo, medo de desfigurar em mim o fascínio que guardo da primeira leitura, essa experiência deliciosa e intraduzível.
Agora caminhando pelas “Lembranças de Velhos” na companhia de Ecléa Bosi, tenho encontrado reflexões importantíssimas que me levaram a exclamação, que abre o primeiro paragrafo deste texto.
Ecléa apoiada em grandes nomes da tradição francesa no estudo da memória, como: Maurice Halbwachs, Henri Bergson entre outros demonstra com uma variedade de argumentos que a memória é um mecanismo complexo.
Assim utiliza o exemplo da releitura para exemplificar que lembrar não é reviver, e refazer. Por isso quando relemos um livro que lemos na infância não repetimos aquela experiência primeira, mas experimentamos outra situação que dialoga com a primeira, mas que é distinta. Isso se deve a uma série de fatores dentre os quais estão, a capacidade critica, o contexto histórico-social e psicológico, etc. Sua atividade de ler está direcionada para outro fulcro, dada a sua idade atual, sua experiência sociocultural. E assim o que te marcou e fascinou na primeira leitura, quando jovem agora sofre uma desfiguração seja pela sua capacidade critica seja porque nem se quer tem força para chamar lhe a atenção no texto, por tudo isso tem se a impressão de que se está lendo um outro livro. Assim não se “re-vive a primeira experiência, mas se re-faz”.
Assim aplica à memória o conceito trabalhado, quando acessamos a memória pra mobilizar de lá as lembranças, não estamos revivendo o passado tal qual ele foi, mas o estamos reconstruindo a partir de uma complexa rede de fatores, que envolvem a motivação, forças ideológicas, memória individual e coletiva, vivacidade da lembrança e a capacidade de narrativa de quem lembra. Tudo isso influência sobre a lembrança que reconstitui determinado passado condicionado a subjetividade de quem lembra e narra. Chama ainda a atenção citando Goethe, que nenhuma lembrança da infância é de fato claramente uma lembrança individual, pois confundimos muitas vezes nossas lembranças, com o que foi dito a outros... “Evidenciando aí o caráter não só pessoal, mas familiar, grupal e social da memória.
Apoiada em Stern, Ecléa termina o argumento dizendo: “... As lembranças são refeitas pelos valores do presente...”.
De volta ao livro Meu Pé De Laranja Limas. Aos que não tiveram o prazer de ler em sua infância esta obra que me é tão cara, cumpre dizer que este livro conta a história de um menino de cinco anos chamado Zezé, que pertencia a uma família muito pobre e numerosa. Zezé tinha muitos irmãos, a sua mãe trabalhava numa fábrica, o pai estava desempregado, e assim a família passava por muitas dificuldades. As irmãs mais velhas tomavam conta dos mais novos; por sua vez, Zezé tomava conta do seu irmãozinho mais novo, Luís.
Zezé era um garotinho muito interessado pela vida, adorava saber e aprender coisas novas, novas palavras, palavras difíceis que o seu tio Edmundo lhe ensinava. Contudo, passava a vida a fazer traquinagens pela rua, a pregar peças aos outros e muitas vezes acabava por ser castigado e repreendido pelos pais ou pelos irmãos, que passavam a vida a dizer que era um mau menino, sempre a fazer maldades. Todos estes fatores e o fato de não passar muito tempo com a mãe, visto que esta trabalhava muito, faziam com que Zezé, muitas vezes, não encontrasse na família o carinho e a ternura que qualquer criança precisa. Compensando essa carência na relação que estabelece com sua irmã Glória, que ele carinhosamente chama de “Godóia”.
Ao mudarem de casa, Zezé encontra no seu quintal da sua nova moradia um pequeno pé de laranja lima, inicialmente a ideia de ter uma árvore tão pequena não lhe agrada muito, mas à medida que este vai convivendo com a pequena árvore e ao desabafar com esta, repara que ela fala e que é capaz de conversar consigo, tornando-se assim o seu grande amigo e confidente, aquele que lhe dava todo o carinho que Zezé não recebia em casa da sua família.
Resguardadas as diferenças geográficas e contextuais, o menino Zezé era realmente o retrato de minha infância e suas aventuras, traquinadas e desventuras ecoavam em mim com muita força. Um auto reconhecimento na pureza, simplicidade, sofrimento, pobreza, devaneios e anseios de Zezé, tiveram o vigor capaz de imortalizar em minha memória a leitura feita a mais de duas décadas. E em função de não encontrar se disposto a abdicar a estas lembranças que trago, da primeira leitura, tenho sido reticente na releitura deste livro. Ecléa vem com muito vigor e propriedade forçar-me a fazer este caminho de reflexão do que é a lembrança, de como a estrutura sociocultural imperam no ofício de lembrar e como lembrar e re-fazer.

Referências Bibliográficas:
VASCONCELOS, José Mauro de. O Meu Pé de Laranja Lima. 12 ed. São Paulo: Melhoramentos, 1969.
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade, Lembranças de Velhos. São Paulo: T. A. Queiroz, 1979.




Joaquim Teles/22/01/2012