quinta-feira, 16 de setembro de 2010

CONTO: O DOUTOR, vidas que se cruzam.

Bom, tudo começou tão sorrateiramente, tão inusitadamente que até parece montagem literária! O dia era comum, sem qualquer pretensão de especialidade, aliás, muito pelo contrário, uma rotina tão comum que chegava a beira do enfadonhismo. Mas a viagem estava marcada era caso de saúde e não dava pra esperar, a agenda havia sido feita previamente e todos os detalhes do qual dependia a viagem estava dentro do limite da precaução e da providência, administrativamente elaborado, disposto, encaminhado. Bom, afinal Nina é uma acadêmica em reta final de graduação no curso de administração na UFG (Universidade Federal de Goiás)!
Bem, pormenores e necessidades pessoais providenciadas documentos e demais assessórios em mãos o veiculo de transporte já colocado na frente da garagem e devidamente abastecido, aguardava apenas o desenrolar final para proceder à viagem até a cidade de formosa onde estava marcada a consulta.
Chegaram por volta das nove da manhã, o estacionamento estava cheio, o que sintomizava alguma espera, mas o dia estava todo determinado para essa finalidade, qualquer espera que se procedesse seria mero ingrediente de intensificação das atividades já previstas!
Na sala de recepção fizeram o credenciamento burocrático e se encaminharam a ante-sala de atendimento do consultório do doutor Gustavo. Ali as previsões de longa espera e cansaço não se confirmaram, havia poucas pessoas para o Doutor Gustavo atender, duas jovens e um homem de meia idade estavam à frente, ou seja, esperariam apenas por três atendimentos até que chegasse a vez da Tati a paciente em questão. Mas o fato é que a ordem de chegada pouco poderia intervir na ordem de atendimento, já que tudo é previamente agendado.
As horas voam, mesmo que às vezes tenhamos a impressão de que o tempo estagnou e se recusa a continuar o seu trânsito. Naquela salinha, Nina e Tati conversam disfarçando a ansiedade da espera, e no seio da falas das duas está a figura do doutor Gustavo, sim o objeto do diálogo é o jovem e belo doutor.
Ambas concordam quanto à beleza e jovialidade do médico, que encanta as duas jovens. A conversa se adensa e o tempo passa de repente o anuncio de que chegou a vez de Tati ser atendida. Nesse ínterim a porta se abre e Tati entra, ela passa e o olhar do doutor Gustavo, por um breve fragmento de segundo encontrou o olhar de Nina que naquela saleta o espreitava com olhar devoto de quem se debruça sobre a perfeição a contemplar suas minúcias. Assim estava ela, que nesse breve fragmento de segundo encontrou o seu ápice num revestir-se de eterno quando recebeu a reciprocidade do doutor a apreciá-la firme e insistentemente, ainda que no fortuito e eterno fragmento cronológico.
Foi rápido, tão rápido que se confirma dicotômico, pois eternizou nas retinas brilhantes de Nina, o olhar inesquecível do doutor Gustavo, que lhe apreciava sem nenhum pudor ou determinação de cautela ou disfarce, ele foi contundente e agressivo, faminto e persuasivo, foi de uma eficiência que ninguém jamais poderia imaginar que tão breve fragmento de segundo, tão intensa e efêmera olhadela gestaria ali num passe de mágica uma atração cinematográfica, uma paixão romancesca, um desejo carnal, intenso e devaneador, poético e ébrio, luxurioso e atrevido...
Nina nunca mais seria a mesma após a aquele encontro retínico, aquele amor visual, aquele flerte casual e instantâneo, passageiro e diminuto. A olhadela por entre a fresta da porta do consultório do médico imprimiu em Nina uma fixação, gerou em seus anseios femininos, o tipo ideal, o molde adequado, o homem dos sonhos, o amante perfeito. No silêncio de sua introversão imaginava ela os afagos, os carinhos, os amores. Contemplou em seus arquivos mentais, aquela imagem dócil e cativante, inesquecível e devotável e a amou de um jeito quase patológico. No seu âmago o desejou com furor uterino intenso e decidiu que faria tudo, tudo quanto estivesse ao alcance de sua atrevida vontade de ter para si aquele homem.
A consulta alcançou termo, outros assuntos foram tratados e enfim o dia desvaneceu no lusco-fusco. A volta trazia um expectância pueril e jovial num misto grandiloqüente que excitava e inquietava Nina que no silencio de sua intimidade repetia para si, ele será meu, ele será meu, ele será meu...
Os dias se sucederam naturalmente, sem muitas novidades, até que numa noite quente, Nina não foi à faculdade e teve tempo de volver às suas memórias e assim participar a Tati, aqueles volumosos desejos, encontros e pensamentos, que em um turbilhão de acontecimentos gestaram em si as mais inusitadas fantasias, os mais intensos e variados desejos, os mais inconseqüentes e intrépidos planos de aproximação, para ter um contado com ele, o objeto de todos os seus pensamentos, de toda a sua contemplação, de todas as suas fantasias. O doutor Gustavo.
No decurso do dialogo com Tati, confissões foram reciprocamente proferidas, sensibilidades e fantasias desfiadas em um rosário de deleites e risos que aproximavam as duas num lúdico momento de conversa de mulher. Nina discorre sobre os cabelos láureos e belos, os olhos maravilhosos, a pele, e aqui verbaliza a emoção e o tesão que imagina causar, o toque daquele corpo, daquela pele, enfim daquele homem. Fala da boca, do riso, do brilho no olhar, do cheiro que a metros pôde sentir, uma essência diferente, mas que podia ser definida como a essência da paixão voluptuosa e desmedida. E ambas se riam e se divertiam muito... Até que Tati faz uma observação que foi quase uma agressão aos ouvidos de Nina, ela confessa ter visto uma aliança nos dedos do médico. Isso implica que ele é noivo ou casado, isso muda tudo, isso agride todas as fantasias, todos os devaneios, todos, todos, todos.
Nina é tradicional em muita coisa e no que se refere ao casamento, ela é carola. Católica de educação e prática até aceita com certo pudor competir com uma rival para subtraí-la o noivo, embora muitas vezes se sinta promíscua com relação a essa verdade, mas ainda assim, tolera, mas se o médico for de fato casado será o fim a morte trágica de tantos sonhos, desejos e fantasias. O simples pensar nisso, a entristece e extenua.
Nina é uma mulher muito bonita, é jovem, alegre, tem um corpo bem feito e bem delimitado, se veste bem, embora com parcimônia, e consegue se impor como mulher sem nenhum esforço, suas atribuições naturais de mulher são bastante eloqüentes e persuasivas para qualquer homem, e muito certamente, não passa despercebida por nenhuma mulher. Ela tem uma beleza simples, pouco erotisada e nada vulgar, porém sem nenhum matiz artificial, das construções estéticas que formam e deformam as mulheres que lhe são coevas.
O desejo e os projetos para alcançar o médico, que não se esvai de sua mente fica a cada dia mais intenso nem as considerações de uma possibilidade remota, mas possível de ser ele um homem casado, a faz esmorecer de sua meta, ela vai fazer contato e ouvir a sua voz percebê-lo de algum modo e em fim descobrir se é esse deus nórdico um, homem que lhe está vetado por suas convicções religiosas e morais, por ser casado, ou se é um homem que aceita as investidas de uma mulher decidida e em plena guerra pelo seu projeto. Assim mobiliza todas as suas forças, todos os seus contatos e após muito esperar, ligar, conversar, insistir, enfim consegue o numero do celular do médico e agora está a um passo de fazer a ligação e ver decidido o final desse romance psíquico em que ela se vê envolvida, pela força da beleza do médico e pelo impacto do brilho do seu olhar.
No Silêncio de suas expectativas elabora mil planos de como fazer a ligação, e de como proceder a essa fala de introdução. Tudo é perfeitamente factível e inseguro, segundo seus pensamentos. Dependerá somente dela o sucesso desta empresa, no entanto ela não se engana conhece suas inquietações e tudo quanto está além de seu controle, o que em muito a deixa insegura, porém não o suficiente para fazê-la desistir.
Dentre tantos planos ela concebe um, não melhor ou pior, mas diferente e desafiador. Um amigo a aconselha a interpretar uma personagem, desenvolver uma performance teatral, para se aproximar do seu objeto de desejo e verificar tudo quanto é indispensável para prosseguir ou desistir. Ela gosta das sugestões e de toda a loucura do plano e passa a considerá-lo, cria um pseudônimo e define quem é essa mulher.
Sexta feira véspera de um feriado, que alongará o final de semana até a segunda feira, que será folga em função do feriado nacional, Nina acorda decidida a encontrar de vez o seu médico e verificar todas as suas inquietações.
O telefone toca... Trimmmm, trimmm, trimm... Mm... Uma voz suave e desenvolvida avisa eletronicamente que a ligação estará sendo encaminhada á caixa de mensagem, quando a ligação é subitamente interrompida.
Uma angustia faz ebulir um sentimento de descontentamento que em muito lembra a sensação de fome. Uma irritação grita vociferante dentro daquela mulher impecavelmente produzida, e num surto de ira, ela atira o celular sobre a cama e sai do quarto pisando duro e asperamente como se estivesse esmagando toda a sua frustração, a cada passo. Anda pela sala, passa pela cozinha, abre a geladeira, pega a jarra de suco e toma um pouco de suco fresco feito com poupa de fruta da fazenda. Um vento leve e descontraído entra pela janela e lhe sopra numa brisa afável e rejuvenescedora, que vai levando toda a irritação momentânea que a afligia. Com a mesma imponência visual e estética refaz o caminho até o quarto agora num bailar sutil que em nada lembra a intensa angustia que destilara no caminho inverso.
Defronte ao espelho olha a si firmemente e deixa escapar um discreto e zombeteiro sorriso. Vira-se para a cama e olha o celular em um canto próximo ao travesseiro em formato de coração de intenso vermelho aveludado. Sorri levemente, coloca o copo sobre a mesa do quarto e se joga sobre a cama como, uma suicida precipita-se. O atrito do seu corpo contra o colchão macio faz ondinhas e um ruidoso som que em escala decrescente vai silenciando-se. Suas mãos macias e de dedos finos e harmônicos desliza suavemente sobre o lençol fino e perfumado e numa procissão lenta e planejada serpenteia sobre a cama até tocar o aparelho celular que ali está inerte. Gira lentamente e minuciosamente olha aquele aparelho seus pensamentos divagam em milhares de pensamentos desconexos, que vão desde a filosófica questão de onde viemos até a questão mais funcional no que se refere a um aparelho tão pequenino como aquele, poder aproximar tantas pessoas e vencer a distancia, o tempo e em certa medida o espaço... Naquela semi-inércia, numa letargia filosófica ela se demora num momento sem nada de nexo, até que abre o aparelho e verifica uma chamada não atendida, quando visualiza o número que chamou num súbito movimento salta sobre a cama e senta se numa manobra circense. O coração acelera, as mãos suam frio e o respirar se descompassa, na irritação do momento abandonou o celular no quarto e enquanto saia até a cozinha alguém ligou, e não foi qualquer alguém, foi alguém especial, alguém por quem ela buscara a semana toda e insistentemente encontrava a sua caixa de mensagens. E agora que a pessoa finalmente resolve retornar a ligação ela está ausente e não atende. Um desespero mórbido se apodera dela e ela culpa-se, culpa-se até decide ligar mais uma vez.
O ambiente é corriqueiro, uma unidade hospitalar. Mas é um hospital que atende particularmente e em convênios com instituições públicas, no entanto a estrutura é impecável embora simples. No estacionamento um corola preto, reflete as imagens adjacentes de tão limpo e lustrado, sua porta se abre e acolhe ali o seu proprietário, um belo e jovem médico, que após um longo dia de trabalho ainda irá se encontrar com uma jovem que lhe solicitou ajuda para um trabalho universitário de conclusão de curso.
O doutor Gustavo é muito solícito sobremaneira aos estudantes que a ele recorrem, pois ainda trás em si o frescor e os desafios inerentes ao processo de graduação. Por isso sempre que pode dispõe se a ajudar àqueles que o procuram. No local combinado ele chega meio sem jeito, pois está cansado e nem pode passar em casa pra tomar um banho e se descansar um pouco. Numa mesa uma jovem o recepciona com um sorriso que dispensa qualquer apresentação. Com um sorriso acolhedor o médico retribui a saudação e trocam dois ósculos faciais sentam-se e sem demora ou qualquer fetiche protocolar passam as falas, pois o pragmatismo do doutor Gustavo não permite muitos rodeios.
Júlia se apresenta como graduanda do curso de administração, conceitua sua instituição de ensino e a conversa se desenrola.
A conversa vai se intensificando e ora ou outra o médico toca a mão de Júlia numa espécie de ritual de intimidade, e desconhece os efeitos dessa ação na bela jovem.
Ela está impecavelmente bela, num vestido de cores mistas e leves de harmonia indefectível, que lhe cai muitíssimo bem valorizando seu corpo e seus traços femininos, uma maquiagem moderna e sutil que transmuta aquela jovem bela numa explosão de mulher, uma espécie de deusa mítica grega, todos os presentes e transeuntes registram a presença daquela jovem. Não há nada de extravagante e ou diferente demais na jovem, mas sua figura exerce um magnetismo que atraem os olhares inclusive o do médico que a fita insistentemente enquanto conversam, e talvez até inconscientemente sente o impulso de tocar as pontas de seus dedos, que apresentam belas unhas, artisticamente produzidas.
O espelho reflete dois corpos nus em estado de repouso, gotículas de suor escapam pelos poros da pele avermelhada, um perfume de paixão emana da cama desfeita com lençóis ao chão e um mar de amores afoga as duas almas entrelaçadas em dois corpos que mais parecem um, numa cama de motel. A mente sonolenta e saciada rememora o frenesi dos corpos famintos em retro projeção de imagens imediatamente vivenciadas e ainda quentes no colo do passado. Olhos brilhantes como o sol, corpos quentes como lava de um vulcão incandescente, vozes loucas e roucas em gemidos e gritos desesperados, impactos de peles que se atraem com a força e o magnetismo que lembram a força da gravidade. Um não consegue deixar o outro e se possuem e se amam, se devoram se deságuam infinitas vezes num amor insaciável. Como se todo o resto do mundo não existisse, mais que isso, como se do gozar desse amor, do viver dessa paixão, do devorar um ao outro, numa bacante e indescritível noite de amor, dependesse toda a estrutura da existência universal. Assim se demora nesse ato, quando o médico Gustavo inquire educadamente à jovem Júlia - Em que lhe posso ajudar?
Despertando do sonho que vivenciava naqueles segundo que sucederam ao toque do rosto de Gustavo ao seu rosto, onde Júlia perdeu a razão de tempo, espaço e realidade e o amou como uma deusa gerando o cosmo do seu amor insaciável, ela o fita firmemente e sorri, o papo se desenrola e muito se conversa em quarenta minutos de conversa. O telefone do médico toca e ele indisfarsavelmente ganha um leve rubor nos seios da face, diz que aconteceu um imprevisto e que precisa encerar aquele assunto, se desculpa levanta-se e antes que Júlia pudesse dizer algo mais, ele se vai apressadamente.

Os dias correm na indiferença comum do deus cronos, sem si importar com as querelas vãs que preenchem os dias. Assim as frivolidades toscas que enchem o cotidiano só encontram relevância no seio dos seus atores. Nina acorda com o raiar da aurora, pois em mais um dia de viagem vai novamente ao consultório do doutor Gustavo, aquele homem maravilho que tanto lhe impacta. Dessa vez ela também se submeterá aos exames daquele homem e têm calafrios só de imaginas suas mãos tocando seu corpo para proceder aos exames.
No consultório quando a porta se entre abre e é chamada a sua irmã Tati, os olhos de Nina se encontram com os do médico e aquela cena de tão distantes dias se repete como se acontecesse da primeira vez. Os corações se descompassam e certo inconveniente se mostra quando um e outro deixam os presentes perceberem a trocas de olhares.
Quando enfim é anunciado o nome de Nina, o frio lhe engessa os movimentos e ela teme aquele momento, mas avança e adentra o consultório, a porta se fecha. Vendo o prontuário, o médico pergunta, Nina ou Júlia, a quem eu devo atender? Aquela pergunta desarmou a bela jovem que se viu nua frente ao médico, tudo que ela conseguiu esboçar foi um sorriso fortuito e de pouca segurança. Ao se demorar sobre o médico verificou que este estava rubro e trêmulo o que lhe fez recobrar a segurança e então avançou, e devolveu a pergunta, em tom audaz e irreverente. A qual delas deseja examinar? Os dois se riam, marcaram de se encontrar pra dissolver os resquícios daquele primeiro encontro.
Enquanto atendia a Nina o médico demonstrava muito zelo e carinho por ela e alimentava assim seus mais inusitados sonhos, se despediram e um novo encontro a três ficou agendado.
No encontro em local adequado e torcendo para que tudo acontecesse da melhor maneira estavam presentes Nina, Gustavo e Júlia. Muitas expectativas envolviam o encontro. Quando estavam frente a frente e sem pressa Nina olhou diretamente na mão de Gustavo que não trazia nenhuma aliança como prenunciava Tati, mas estava marcado em seu dedo anelar o sinal que ali esteve por muito tempo a presença de uma espécie de anel. E nina se pergunta: - Terá sido a aliança propositadamente retirada, teria sido cafajeste o suficiente para tamanha manobra, o lindo e irresistível Gustavo? Júlia O fitava famintamente e administrava previamente os atributos físicos do bem sucedido jovem médico. Nina e Júlia se entreolhavam maliciosamente e se inquiriam sobre o que poderia resultar daquele encontro. O jovem médico olhava firmemente aquela jovem e bela mulher ali em sua frente e não conseguia dissociar As duas identidades que detinha da mesma jovem e bela mulher.
No momento em que iniciavam a conversa um jovem negro e belo adentra o recinto acompanhado de uma mulher bela e de vestes requintadas e imponentes, um rubor intenso desenhou no rosto de Nina um aparente pavor e o doutor Gustavo percebeu tudo isso sem disfarçar sua inquietação com aqueles que acabaram de chegar, felizmente aqueles se encaminharam a outra extremidade do salão, no entanto uma inquietante sensação de que estavam sendo observados permeavam o casal que conversavam.
O que há de razoável em tudo isso é que sob o ponto de vista da humanidade, todos sonhamos, amamos, traímos e somos traídos em algum grau. Todos somos belos, lindos e irresistíveis, dependendo tão somente dos olhos que nos olham e sobre quais perspectivas nos olham. As vezes sofremos por idealizar demais e buscar longinquamente a felicidade que está do lado nos chamando pelo nome. No entanto já advertiu o poeta lusitano tantas vezes parafraseado... Tudo vale a pena se a alma não é pequena, e o profeta anunciou aos pudorosos e puritanos que temem a vida por suas dores e métricas que na dose certa e na hora certa tudo é bom e faz bem, afinal a diferença entre veneno e remédio é a dose. Nina é todos nós assim como Julia e Gustavo, agora o desfecho da história pode ser recontado ao sabor do desejo de cada um...
Não resistindo a inóspita situação de se sentirem vigiados e movidos pelo desejo, Nina e Gustavo deixaram discretamente o local e se foram deixando no ar um quê de mistério e suspense que não anuncia o desfecho de vidas que se cruzam tão inusitadamente sob os auspícios dos mais variados episódios, e assim se mesclam deixando e levando um pouco de cada um...

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

ELEITOR FICHA LIMPA

Eleições 2010

Vivemos numa democracia! Uma democracia de porcelana, democracia que custou muito caro à nossa brava gente, democracia que se fez de sonho, suor e sangue, de lágrimas, brados e tiros, de gente caindo no calor da batalha ou no caminho da vida, nas mais variadas das lidas, gente despertando e soerguendo-se a calcar posições e a dar sua participação no formatar dessa democracia. Uma democracia cara e frágil, frágil, tão frágil que ainda não dispõe de um nível de consciência que permita a nossa gente uma realidade mais justa e igualitária, inclusiva e diversa. Somos a democracia, dos direitos em construção e dos deveres impostos e sempre que possível, relegados. No entanto somos a melhor democracia que o capital pode comprar.
Esse ano tem eleições “a festa da democracia” e o povo brasileiro ouve falar em candidatos ficha limpa, esse rumor que é brisa a anunciar uma nova estação excita os mais sonhadores que já convictos aguardam uma renovação política, uma reforma política, uma mudança que reflita a necessidade e o desejo do povo de ver o Brasil representado por homens e mulheres dignos e competentes e um sistema político/eleitoral firme transparente e eficiente. No entanto ainda temos em grande e larga escala, o voto vendido por favores, por vínculos familiares, por afetos, por dinheiro, botijão de gás, doze de pinga, saco de cimento etc., essa prática assassina o sonho de mudança e a possibilidade de renovação e reforma. Pois evidencia o analfabetismo político que ainda vigora em nossa sociedade. Soma se a essa grotesca realidade da corrupção de políticos e eleitores, o triste sonho da neutralidade que tantos ainda julgam ser viável e real, onde batendo no peito dizem convictos e altaneiros: eu não discuto política, eu não gosto de política, eu odeio política! Mal sabem que o homem é um ser político e que passivo ou ativo somos sempre partícipes desse universo. O pior é que fugindo de se conscientizar, de participar e de agir honestamente estão garantindo a manutenção da politicalha (político canalha), nas posições de mando e decisão do nosso país, estado e município. Depois falta saúde, remédio, ambulância exames médicos, hospitais... Falta educação, escolas creches, merenda escolar, transporte escolar, professores, etc... Falta segurança, policiamento, tranqüilidade em casa e nas ruas. Entre tantos itens que a cada dia faltam e vão faltando sempre mais! Agimos ignorantemente, maliciosamente enveredando-nos por caminhos penumbrados e tortuosos, trabalhando sempre em favor do egoísmo e do individualismo. Eleição é um acontecimento coletivo e plural que visa dar voz a cada cidadão no processo de escolha de seus representantes nos poderes executivo e legislativo. O triste em tudo isso é verificar que o pensador em certa medida tem razão quando desabafa, “quando quem manda perde a vergonha, quem obedece perde o respeito”, pensando nisso é hora de exercermos com mais brio e honradez os nossos papeis sociais, a começar pelo papel de eleitor e votar em pessoas que tragam uma história de vida que lhes credencie a representar uma nação cheia de potencialidades e um povo historicamente, governado em detrimento de seus direitos e interesses. Diga não ao político corrupto e enganador, seja você também, um eleitor ficha limpa, pois é assim que vamos fortalecer nossa democracia e superar tantas injustiças e desigualdades. Participando diretamente da vida política, definindo sua posição e contribuindo para que a democracia de porcelana seja transmutada em uma democracia forte e sólida onde o ser humano encontre espaço para cumprir o seu papel na história... Ser em plenitude.